Um Homem Misterioso

por Vinicius Carlos Vieira em 03 de Janeiro de 2011

A impressão que se tem de filmes como “Um Homem Misterioso”, preocupados com algo mais que simplesmente contar uma história, é que, como nesse caso, parecem se esforçar para dar de presente para seus espectadores um personagem, mesmo que para isso tenha que sacrificar a mesma.

No filme de Anton Corbjim (que estreou na telas com a cinebiografia do trágico Ian Curtis, líder do Joy Division, em “Control”), George Clooney é algo entre um assassino profissional e um criador de armas, que acaba tendo que fugir para o interior da Itália por alguma razão não tão clara. É lá que ele acaba então resolvendo fazer um último trabalho, mas que, obviamente, nada vai ser tão fácil assim.

Visto de longe, “Um Homem Misterioso” não tem exatamente muita novidade, e até não se importa muito em fugir desse lugar comum todo, do amor pela prostituta, da traição/reviravolta e até de uma amizade com um padre (existe melhor jeito de se colocar à frente de seus pecados que esse?) e, em pouco tempo, todos no cinema se pegarão desconfiados dos rumos que a trama vai seguir, assim como a maioria de suas conclusões. O interessante, é que isso tudo não atrapalha em nada o filme.

Diante da opção de contar uma história ou deixá-la ser entendida, o roteiro de Rowan Joffe (adaptado do livro de Martin Booth) pega o segundo caminho e acaba pouco se importando de deixar tudo claro. Durante a maioria do tempo, o espectador de “Um Homem Misterioso” vai ter que se esforçar, não para entender, mas para perceber o que está acontecendo, o que aquele cara silencioso está sentindo e até onde ele está enxergando.

A câmera de Corbjim acompanha um homem desconfiado a cada esquina, que não sabe o que pode vir por trás de cada viela, cada telefonema e cada pessoa, um olhar que se esforça para ficar somente ao lado de seu protagonista, sem deixar que sua platéia saiba muito mais que ele, deixando para só então ligar os pontos a cada ação.

Não que tudo isso crie um thriller de paranóia, muito pelo contrário. Ainda que pontuado por um trio de sequencias de ação, a idéia geral não esconde uma espécie de tensão sádica, onde a todo momento é fácil esperar que o inevitável exploda com um tiro. Corbjim aposta nesse sufoco e consegue: “Um Homem Misterioso”, mesmo lento e contemplativo, atinge fácil o objetivo de deixar seu espectador sentado naquela poltrona torcendo por aquele cara.

Nesse quesito, ainda precisa-se levar em conta a força e o controle de George Clooney, incorporando uma quase total falta de sentimento, mas ao mesmo tempo em que faz com que seja fácil perceber o quanto toda aquela angústia, de se sentir um alvo vivo, o carrega morosamente por aquelas ruas de pedra. Clooney cria um personagem tétrico, que parece acordar todas manhãs esperando que ela seja a última, mas sem em nenhum momento se entregar a isso. Ao mesmo tempo em que ruma para um final onde vê o amor tomar conta de suas ações e a dor de não conseguir completar seu caminho o tomar quando o inevitável vem em sua direção.

O resto do tempo, Corbjim ainda mostra um capricho visual irretocável, com composições pertinentes e fortes, com seus horizontes dividindo seus planos horizontalizados e uma calmaria sem movimento que poderia até deixar o filme lento demais, mas casa extremamente bem com a idéia e faz com que “Um Homem Misterioso” então se torne um filme visualmente belo e, mais que tudo, coerente com seus objetivos.

Talvez, “Um Homem Misterioso” vá até chatear aqueles que irão ao cinema atrás de algo um pouco menos hermético, mas certamente não deixará com que alguns que sentem falta de um pouco de sensibilidade no cinema de hoje se decepcionem com essa história sobre um “americano (título original) misterioso” que sabe que, como uma luz no fim de um túnel (como nos créditos iniciais), nem sempre existem opções a não ser chegar nela e deixar-se cegar a em uma explosão branca.

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The American (EUA, 2010), escrito por Rowan Joffe (à partir da obra de Martin Booth), dirigido por Anton Corbijn, com George Clooney, Irina Bjorklund, Johan Leysen, Tekla Reuten e Paolo Bonacelli.

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