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Um Ato de Esperança | Emma Thompson é o melhor do filme


Dramas no tribunal costumam chamar a atenção do espectador automaticamente. É do interesse humano querer saber qual será o destino das pessoas envolvidas. Quando é sobre um crime ou casos de família o interesse é maior. Dentro dessa ótica, filmes como Um Ato de Esperança já saem na vantagem logo na largada.

Mas há um outro motivo do porquê esse filme de Richard Eyre sair na vantagem: Emma Thompson. Versátil, ela consegue eficiência tanto em papéis de comédia (Razão e Sensibilidade), de drama (Tinha Que Ser Você) ou ambos (Os Meyerowitz). Aqui ela é uma protagonista extremamente forte em um drama pesado e cuja vida das pessoas julgadas dependem 100% do seu intelecto e poder de encontrar a resolução mais justa para cada caso.

O roteiro de Ian McEwan, que se baseou em seu próprio livro, é uma imersão realista no mundo dos juízes de primeira instância, mas que usa um drama fácil para incitar algumas questões universais. Todos sabemos que a grande maioria dos casos são simples enunciações do que a lei já prevê ou uma coleção massiva de julgamentos anteriores. É muito difícil que no mesmo ano um juiz decida casos inéditos e polêmicos. Fazer a juíza Fiona Maye, a personagem de Thompson, decidir dois casos polêmicos de vida e morte na mesma semana é forçar um pouco demais a ficção.

Porém, essa é a vantagem da ficção: intensificar um pouco as coisas para que elas ganhem uma nova tonalidade. E nós nos acostumamos a esse drama, vendo uma ou outra novela mexicano ou um filme de sangue latino que usa daquela tensão falsa que soa real porque a música está muito tensa e o rosto dos atores muito sombrio. Esse é um caso típico que ainda é alimentado pela interpretação intensa de Thompson, o que garante uma sessão exaustiva, ainda que intelectualmente desafiadora.

Thompson faz uma pessoa que chega aos cinquenta anos compenetrada em um trabalho que adora fazer. Ela pula de caso em caso e se esquece dos finais de semana e das noites com o marido (Stanley Tucci, que consegue dizer, com afeto, coisas cruéis para a esposa). Não tendo filhos, logo se vê que há anos ela executa a mesma rotina. E ao observarmos os casos de vida e morte que está julgando, como podemos pensar diferente? Sua personagem soa não apenas absolta no trabalho, mas uma verdadeira altruísta, sacrificando sua vida pessoal pelo bem comum; evitando ao máximo que suas emoções nunca atrapalhem suas ações.

No entanto, a juíza Fiona Maye tem uma semana difícil. Seu marido a acusa com propriedade de sabotar o relacionamento há anos e declara que deseja ter uma amante. Sem tempo para sequer discutir com ele, ela pula para o próximo caso onde tem que julgar se pode-se forçar um adolescente com quase 18 anos a receber uma transfusão de sangue que o salvará. A religião em que foi criado proíbe esse tratamento, mas o caso seria de simples resolução de acordo com a lei de menores (o “Children Act” do título original), que coloca o bem estar da criança/jovem acima de tudo.

Sim, apesar de toda a tensão na corte esse seria um caso simples, não fosse o fato dela estar emocionalmente perturbada, o que a faz, de maneira imprevisível, capturar um detalhe que está faltando no julgamento e que precisa para chegar a uma decisão: o próprio garoto. Porém, ao entrar em contato com ele sua interferência vai além da simples aplicação da lei.

Discutindo questões racionais, emocionais e religiosas ao mesmo tempo, Um Ato de Esperança nunca perde seu fôlego inicial, criando uma atmosfera sufocante para sua heroína. Ela não consegue o tempo e o espaço necessários para tomar decisões a respeito de sua própria vida, além de estar sempre acostumada a não utilizar suas emoções. O que acaba ironicamente nos lembrando do próprio jovem cujo destino está decidindo como seu oposto. Após viver toda sua vida em um ambiente controlado sob leis que ele nunca ousou questionar, agora ele é levado a abrir os olhos à força, mas acaba se apaixonando pelo que vê: um mundo cheio de possibilidades, poesia e amor.


The Children Act” (UK/EUA, 2017), escrito por Ian McEwan, baseado no livro de Ian McEwan, dirigido por Richard Eyre, com Emma Thompson, Stanley Tucci, Fionn Whitehead.

Trailer – Um Ato de Esperança

1 comentário em “Um Ato de Esperança | Emma Thompson é o melhor do filme”

  1. Francisco Carneiro da Cunha

    O crítico não compreendeu o sentido profundo do filme dirigido pelo ótimo diretor Richard Eyre cujos belos filmes tratam apenas e tão somente de uma única e determinante questão sobre o homem civilizado ocupando a Terra há milhares de anos, pois Wanderley Caloni se perde em digressões desnecessárias para só ao final de sua crítica dizer pobremente o que realmente vem interessando ao genial diretor em sua já longa e brilhante carreira, qual seja, face ao andrógino homem primitivo umbilicalmente ligado à Natureza o civilizado entrou em guerra com o misterioso, eterno e universal Criador de todas as coisas para fazer valer o seu escabroso pensamento sensual em detrimento de nossa sagrada intuição sentimental comumente chamada de Amor movendo o Sol e as outras estrelas (derradeiro verso da Divina Comédia de Dante Alighieri). O final do filme seria amargamente trágico ao espectador não fosse a belíssima interpretação da fantástica Emma Thompson no papel central da juíza que, não obstante, não salva da morte o atormentado jovem que outra coisa dela não desejava senão o mesmo e verdadeiro amor que passara a lhe dedicar desde o momento em que a juíza o salvara da confusão infernal em que até então vivera graças à escandalosa burrice ou maldade de seus pais e do mundo torto e cruel em que vivemos (a este respeito é preciso conhecermos O DIBUK de Sch. An-Ski cujo epitáfio é: Por que de tão elevada altura a alma caiu em tão fundo abismo? Ela anseia por renascer!).

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