Ultras | Amor Bandido


Ultras é uma história ficcional de como Sandro “Moicano” (Aniello Arena), um dos líderes de um grupo de torcedores do Napoli, os Apaches, tenta lidar com a maturidade, um novo relacionamento com Terry (Antonia Truppo) e o envolvimento cada vez maior de seu protegigo, Angelo (Ciro Nacca), irmão de um outro torcedor que morreu em um dos confrontos entre rivais.

Essa dinâmica ainda ganha potência com um conflito de gerações, com seu grupo de “ultras” cada vez mais dividido entre a liderança da velha guarda, impedidos de comparecer aos estádios pela violência que cometiam, e a nova geração de membros, que quer voltar a perseguir os rivais torcedores da Roma.

Uma produção bastante interessante, com estilo semi-documental de filmagem e que busca retratar uma realidade bastante presente, não só na Europa mas também por aqui na América Latina. O drama persegue então a vida desses torcedores organizados e sua relação muito intensa com os times e o esporte, assim como as consequencias desse “amor” em seu dia-a-dia.

Os ultras são torcedores de times que se unem para assistir os jogos, fazer arruaça e, já faz algumas décadas, cometer atos de violência. A face mais conhecida desse estilo de torcer são os hooligans ingleses, que já tiveram muitos filmes e documentários realizados.

Só que o jeito hooligan de apreciar esporte, notadamente o futebol, não é exclusividade do Reino Unido; a Itália é um dos países que mais sofreram e sofrem com a extrema violência e o fanatismo dessas pessoas. Inclusive, o ponto de ruptura para os governos europeus em lidarem com essa situação foi uma briga enorme entre os torcedores do Liverpool e da Juventus, que causou dezenas de mortes no estádio Wembley em 1985.

Quando começa o filme, Sandro e um companheiro Apache são obrigados a comparecer a uma delegacia para assinarem um termo todas as vezes que acontece um jogo do Napoli, justamente  uma das medidas tomadas pelos governos: banir dos estádios os torcedores condenados em ocorrências.

Hoje em dia, os ultras se tornaram uma força política e que também estão envolvidos em crimes como tráfico de drogas. Na Itália temos facções ultras que professam abertamente ideologias fascistas e que influenciam no desenrolar dos próprios campeonatos.

Vemos também a ascensão de novas lideranças na torcida pelo banimento do grupo de Sandro, que não querem mais ficar apenas nos jogos em casa. Vemos principalmente, como o futebol acaba se tornando algo além de mero esporte, em alguns casos a única coisa que permite suas vidas serem toleráveis. Enfim, vemos como todos os membros tem subempregos, moram em áreas degradadas e tudo mais.

No aspecto ficcional, é uma trama clássica, onde acompanhamos o cansaço de Sandro com todo fanatismo dos antigos e novos companheiros, sua necessidade de ter uma vida normal, com esposa, trabalho e filhos. Nisso o ator Aniello Arena demonstra muito bem toda sua desesperança e vontade de sair da caixinha em que ele mesmo se trancou.

Aceitando também ser uma trama clássica, Ultras também é filmado de forma mais convencional e aposta em um estilo menos polido, com poucos floreios de corte e câmera, e uma fotografia granulada, cheia closes e um jeitão quase de TV de filmar os atores.

Decididamente, não é uma obra-prima, mas com certeza uma boa estréia em longas do diretor e roteirista Francesco Lettieri.


“Ultras” (Ita, 2020); escrito por Peppe Fiore e Francesco Lettieri; dirigido por Francesco Lettieri; com Aniello Arena, Ciro Nacca, Antonia Truppo, Daniele Victorito, Salvatore Pelliccia e Simone Borelli.


Trailer do Filme – Ultras