Turbilhão | Crítica do Filme | CinemAqui

Turbilhão | Lutas, perseguições, tiros e um pouco de drama


Turbilhão é um filme policial chinês incidental com uma menininha de cinco anos simplesmente adorável. Se observarmos como uma atriz madura você pode dizer que estou exagerando, pois suas falas são forçadas e ritmadas, como um exercício de estilo. Porém, deem uma folga: ela só tinha cinco ou seis anos durante as filmagens, e muitos atores e atrizes durante toda a carreira não saem desse nível.

A adorável Audrey Duo age como uma atriz-mirim novinha como deve ser. Porém, suas falas são ditas com convicção. Ela chora facilmente, mas não titubeia. Não sei como foi a preparação de elenco, mas o resultado te chama a atenção o tempo todo em que a vemos em cena. Ela rouba cada cena e o filme fica menor frente sua estreia em longas. Quer dizer uma das estreias daquele ano, pois em 2019 ela já estava com um segundo trabalho sendo lançado na China, Jie fang.

Mas vamos à história, que é divertidíssima. Vai ficando mais pesada e depois vira um dramalhão. Este rapaz, Liu Xiaojun, aposta tudo que tem em jogos de azar e é enganado. Agora tem que apelar para a bondade do tio policial. Ele é órfão e está em uma maré não muito boa. Sua oficina está destruída e ele deve uma grana alta.

Então surge a oportunidade que ele não deveria aceitar sendo sobrinho de policial: receptar carros roubados. E o primeiro que ele pega tem essa menininha de refém. No porta-malas. Qi-Qi é seu nome. O carro é quase arrebentado pelo só-músculos do filme, que tem uma espécie de 12 portátil, aliás, que vai trazer mais diversão ainda para o filme.

Turbilhão bebe desses filmes de ação com esse tom meio dark com uma pequena ponta de esperança na humanidade para seguirmos. Tem os furos de sempre, mas há uma inteligência na execução de suas cenas mais movimentadas. Há um certo tato, por exemplo, em conseguir situar a menina em cenas que não causasse desconforto ou nos deixasse pensando o tempo todo em sua segurança. Essa é uma virtude, mas acaba sendo um ato falho, pois faz pensar na precisão narrativa de outros filmes que lidam com essa fantasia melhor. Em O Profissional, como um exemplo aleatório, trabalha essa questão usando uma “criança” velha o suficiente para entender o mundo em sua volta, e não é por acaso. Já com cinco aninhos, Qi-Qi apenas serve como isca de desenvolvimento.

Já Liu Xiaojun protagonizado por Chengpeng Dong tem energia e desenvolve bem esse lado meio devagar do personagem. Nós acreditamos que vai ser difícil ele conseguir sair por cima de toda essa enrascada que ele se meteu. Até porque ele é muito azarado. Sua cara limpa não combina muito com ele querer o dinheiro do resgate. Há um limite para acompanharmos ele pelas boas ações, pois suas boas ações estão muito no limite do aceitável da pura ambição de se dar bem.

Já o “rapaz apenas-músculos” se sai muito melhor, e com muito menos tempo de tela. Ele é fiel ao irmão até a morte. As desculpas dele não conseguir se virar sem dinheiro não colam, assim como as conversas entre o protagonista e seu tio serem propícias apenas para arrancar mais drama da situação. E como erro comum, a prostituta do filme é um absurdo de amorzinho. Em suma: esta trama é manjada demais para levarmos a sério, então a empolgação em ver este filme é pela ação, pura e simplesmente.

E ela funciona bem. Turbilhão é um bom exemplo de cinema oriental encontrando o meio-termo entre lutas, perseguições, tiros e um pouco de drama. Estão na cola de mestres do drama como Bong Joon Ho (Parasita), que usa a ação como combustível, e não o contrário. Já Jacky Gan, o diretor de Turbilhão, estreia com um pé na ação desenfreada, se saindo maravilhosamente bem. Resta colocar o outro pé em profundidade em seus personagens. Escreveu o roteiro com mais três pessoas, e está claro que esta não foi a melhor das ideias na hora da produção.


Ting Er Zou Xian” (Chi, 2019), escrito por Jacky Gan, Jin Jin e Meng Li; dirigido por Jacky Gan; com Chengpeng Dong, Hao Ou e Meng Li.


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