Tron – O Legado

Mais que uma continuação do primeiro Tron – Uma Odisséia Digital, de 1982, Tron – O Legado acaba sendo um lembrete do quanto tudo isso é divertido, empolgante e deslumbrante. Porém frágil como porcelana.

O primeiro mostrava Kevin Flynn (Jeff Bridges) um meio hacker, meio engenheiro de computação, meio inventor de jogos que acaba sendo passado para trás por um de seus companheiros, mas no final, acaba conseguindo dar a volta por cima, retomando seu lugar depois de, por acidente, acabar entrando no próprio mundo dos computadores. Agora, a trama dá um salto de vinte e poucos anos  e mostra seu filho rebelde, Sam, (Garret Hedlund), que acabou herdando a empresa, depois do sumiço do pai, mas que, também por acidente, vai parar no mesmo lugar digital (na verdade um pouco diferente) do antecessor.

Mas as semelhanças não terminam por ai, na verdade toda estrutura do primeiro parece ser chupinhada nesse segundo. Suas motivações mudam, mas os jogos logo de cara, a fuga do vilão, o passeio pelo feixe de luz e o grande confronto nos confins daquele universo continuam lá, parecidos demais para se dar valor a essa tentativa. Não que não funcione, até o faz, mas mostra, mais uma vez, que simplesmente ir de um lugar para outro não e a melhor das tramas. Ainda mais sem muito propósito.

Lá atrás, Kevin Flynn acabava dentro da máquina para procurar um arquivo que lhe desse as provas de que seu companheiro tinha lhe passado a perna, informações que estavam no “disco rígido” do personagem título (uma espécie de avatar de um outro colega seu, esse lhe ajudando a reaver o emprego), um motivo que, se não era dos melhores, pelo menos conseguia empurrar a trama por todo aquele mundo de pixels. O problema agora é que nem isso o roteiro escrito por Edward Kitsis e Adam Horowitz (ambos tendo trabalhado na série Lost), a partir de uma história da dupla em parceria com os novatos Brian Klungman e Lee Sternthal (muitas mãos, o que nunca é um bom sinal) consegue. Se o jovem Sam Flynn entra na Grade (o mundo digital) quase por acidente (leia-se sem um vilão por trás, como o pai no primeiro) e chegando lá, só recebe o aviso para “sobreviver” aos jogos, depois disso descobre que o que quer é achar o pai, depois sair daquele lugar e por fim, mas não menos importante, impedir Clu (um avatar do pai assim, como Tron, e vilão da vez), de dominar o mundo real. Propósitos dissolvidos demais para pouca história, o que não deixa objetivo nenhum empolgar o espectador.

Primeiro aquela platéia se empolga com todas aquelas possibilidades dos jogos, daqueles gladiadores digitais, mas logo são obrigados a esquecer esse aspecto, já que não verão mais nada daquilo, do mesmo jeito que a procura pelo pai, que, quando se vê, acabou e ele foi encontrado. O resto é tratado do mesmo jeito: apressado e sem emoção. A diferença em relação ao primeiro é que tudo isso acontecia dentro de uma mesma linha, um objetivo que, desde o começo, dentro daquele novo mundo, o espectador poderia olhar e torcer, ver cada possibilidade, caminho e decisão rumarem para um mesmo lugar. Aqui, esse monte de roteiristas parece tentar resumir algo épico demais para o tamanho do filme, tirando totalmente o peso de cada clímax, sem deixar ninguém aproveitar aquele momento da emoção de dever cumprido, o que coloca em questão ainda se o melhor caminho a ser percorrido não pudesse ter sido acompanhado de um pensamento um pouco maior, uma trilogia ou algo do tipo, re-apresentando até a nova idéia para uma nova geração, mas já pensando em todo desenrolar de algo maior (assim como O Senhor dos Anéis, ou até, com menos classe, em Matrix). No afã de aproveitar um produto, a Disney acabou não parando para pensar em todas as possibilidades que ela teria.

O bom de tudo isso é que esse marasmo narrativo é largamente compensado com todo aspecto visual da produção dirigida pelo, também estreante, Joseph Kosinski. Não só por ele, mas muito mais pela direção de arte de Darren Gilford, tremendamente preocupado em respeitar toda mítica do nome Tron. Ao mesmo tempo audacioso e atrevido o suficiente para mexer em algumas certezas, Gilford é cuidadoso o suficiente para brincar com aqueles fios de neon clássicos, tanto na cidade vista do alto, quanto na enorme sala de servidores da empresa de Flynn (esses, vermelhos, como o “lado mal” deve ser), isso no mundo real, que aqui ganha um tipo “inversão 2D”, tornando-o plano e sem profundidade, deixando isso somente para a Grade. Um pouco como o Kansas em preto e branco do começo do Mágico de Oz e até como o próprio original de 1982, que deixa a inovação técnica da época carregar seu mundo digital. E é ai que começa o show.

Gilford parece muito mais preocupado em “refilmar” a idéia original do que se tornar um refém dela, até por que, visto hoje se percebe o quanto ela é datada e pouco funcional nos dias atuais. O fã antigo vai olhar para tudo aquilo e ter certeza que ambos vieram de um mesmo mundo, mas, do mesmo jeito que todo aquele mundo digital não é só mais um monte de planos quadriculados, evoluído para uma cidade, todo visual parece acompanhar tal evolução.

E a dicotomia pragmática/cromática também continua lá, com o laranja e o vermelho para um lado e o neon azulado para o outro, simplificando totalmente qualquer problema, mas por outro lado, diminuindo demais as possibilidades. Se logo de cara, é impossível não sacar as intenções da versão jovem do Flynn, primeiro a dar às caras, devidamente vestido em linhas quentes, fica fácil perceber a natureza dúbia do personagem de Michael Sheen, que não tem cores, nem luzes no corpo e parece pender para um cinza.

É lógico que esse cuidado é até um reflexo multimídia de toda idéia, já que não vão faltar videogames, brinquedos e todo e qualquer possibilidade de marketing com a marca Tron, mas ainda assim acaba se mostrando tremendamente funcional dentro da idéia do filme. Um visual que, definitivamente, vai ajudar a esconder a grande maioria de seus defeitos narrativos. A pena disso tudo é que partes interessantíssimas, como as próprias batalhas no início, tanto na arena quanto na pista de corrida, que são verdadeiros deleites visuais, acabam sendo pouco aproveitadas, já que a repetição dessa “idéia de jogos” não possibilitaria que outros aspectos fossem apresentados para os espectadores. Uma ou outra luta, com muito slow motion dramático, ainda até conseguem empolgar, mas nenhuma que seja tão bacana quanto esse começo “gladiador digital”, o que deixa que o filme perca bastante ritmo depois desse início mais promissor, e caia demais no esquema corrida contra o relógio.

O curioso disso é que, talvez na pressa, ou preocupação, de imitar o primeiro, O Legado acaba repetindo assim o maior de seus erros: justamente essa ação de videogame. Já que tanto a corrida de “motos de luz” quanto o jogo de “acabar com o chão do adversário”, que são o que mais ligam a idéia do filme aos fliperamas (e ponto de partida da trama) são esquecidas logo depois do começo.

Ainda nesse terreno, um outro problema de Tron – O Legado acaba sendo, muito menos que no original, um distanciamento dele com o mundo real, e principalmente com a empresa de Flynn, a Encom. Tirando uma sequencia logo no começo, onde o Sam sabota um software dela, talvez seguindo a mesma liberdade digital que o pai prega antes de sumir do mapa (mas que, porém acaba vaxatoriamente exagerada com um pulo de pára-quedas e uma aterrissagem sobre um taxi, com ainda a presença sem sentido de um helicóptero, só para depois relacionar sua luz com a de um veículo na Grade), no resto do tempo, ela faz pouca diferença, tirando mais ainda a âncora que movia o personagem de volta no primeiro, e aqui parece faz falta.

Por sorte, essa salada toda, pelo menos, possibilita que o espectador ganhe duas (talvez até três) interpretações mais que competentes do ótimo Jeff Bridges. A primeira com seu avatar Clu, rejuvenescido digitalmente, frio e mal (muito mal) e na outra, o próprio Kevin Flynn, que acaba se tornando uma (quase) variação de seu eterno, e “grande”, Lebowski (com uma pitada onipotente do Neo), preso em um mundo onde suas gírias parecem ultrapassadas e tudo pode ser resolvido com uma boa meditação para “escutar o mundo”. Ao seu lado, a lindíssima Olivia Wilde (conhecida por seu papel na série House) segura bem a bronca da personagem, principalmente no começo, onde brinca com uma espécie de empolgação juvenil por estar participando de uma aventura e conhecendo o filho de seu protetor (O Criador), mas logo, sabotado pelo próprio roteiro, que acaba apostando nela quase como uma heroína de ação. Na terceira ponta, Hedlund faz pouco, já que tem quase nada a ser feito a não ser encarnar o herói destemido.

Mas entre trancos e barrancos Tron – O Legado acaba fazendo sua parte “filme de ação”, ainda que sem empolgar muito, e deixando que o visual compense essa falta de clímax, assim como a trilha sonora extremamente competente da dupla tecno Daft Punk (que ainda faz uma participação como DJs), tudo isso, pelo menos fazendo com que, no final das contas, ninguém saia do cinema reclamando de muita coisa. Não enganados, mas igualmente satisfeitos como as pessoas que foram ao primeiro em 1982. A diferença é que, entre o original e a “copia”, podem apostar que quem será lembrado será o primeiro.


Tron – Legacy (EUA, 2010), escrito por Edward Kitsis e Adam Horowitz, a partir de uma história de Edward Kitsis, Adam Horowitz, Brian KlungMan e Lee Sternthal, dirigido por Joseph Kosinski, com Jeff Bridges, Garret Hedlund, Olivia Wilde e Michael Sheen