Transformers 3: O Lado Oculto da Lua

Mesmo com o perigo de parecer repetitivo, o melhor jeito de analisar Transformers 3: O Lado Oculto da Lua (assim como os dois anteriores) é olhando para ele como um daqueles desastres automobilísticos envolvendo uma porção de carros, aonde quem chega depois do acontecido não consegue fazer a mínima ideia de quem começou aquilo, quem foi o culpado e de que modo a situação possa se resolver. Como se você soubesse que antes daquele amontoado de ferro tivesse existido uma história, mas ela pouco importa, já que é com aquele metal retorcido que você vai ter que conviver.

Talvez a culpa seja do roteiro estapafúrdio de Ehren Kruguer (que já tinha escrito o anterior), tentando criar uma história tão grande que simplesmente não cabe no filme O Lado Oculto da Lua, que, para tomar vida, precisa fazer isso cheia de furos, repetições e desculpas esfarrapadas; ou simplesmente seja culpa do próprio Michael Bay, que parece emocionado com o tamanho de tudo e esquece de, por mais simples que isso possa parecer, tentar dar um sentido a tudo aquilo.

Na empolgação de dar uma sobrevida à série, nenhum dos dois se envergonha de, logo de cara, voltar a falar da “famosa” guerra que aconteceu no planeta dos robozões (há muito, muito, tempo atrás), somente para sacar da manga um novo detalhe, uma nave que conseguiu fugir e acabou colidindo com a Lua (a nossa mesmo, lá no céu). É essa colisão misteriosa que empurra a Rússia e os Estados Unidos à chamada “corrida espacial” e que resultou na chegada do homem ao nosso satélite natural.

A trama de Kruguer não para ai, é nessa viagem que os Estados Unidos acaba descobrindo a existência dessa raça de robôs altamente evoluídos (mas então como isso não foi à tona no primeiro e no segundo filme? Perguntaria meu incauto leitor… e eu o mandaria perguntar para o Sr. Bay) e isso reflete (também não importa muito como) em mais uma tentativa dos Decepticons de (de novo) acabar com o Autobots (que continuam trabalhando em parceria com o governo dos Estados Unidos para manter a paz no planeta) e dominar o mundo.

Mas não é só isso, o roteiro de Kruguer é ainda obrigado a colocar o herói Sam (Shia Labeouf) no meio da trama de algum jeito, e é exatamente isso que ele faz, portanto não se espera muita vontade de cruzar as histórias dos robôs com a dele, que agora é um cara desempregado e morando às custas da nova namorada (vivida pela modelo Rosie Huntington-Whiteley, debutando no cinema no espaço deixado por Megan Fox).

Por um lado mais prático, não há como negar que Kruguer, em um esforço hercúleo consegue sim ligar toda essa massaroca de sub-temas e no final das contas tudo até parece fazer parte de uma história só, mas de um modo tão frágil que fica difícil levar a sério tudo isso quando ele decide amarrar as pontas e colocar tudo no mesmo eixo. A impressão que fica é que, ou todos no filme são completamente tomados por uma imbecilidade que lhes impede de perceber tudo que está acontecendo, ou todos no cinema precisam nadar nessa espécie de idiotização que afoga Transformers 3: O Lado Oculto da Lua. E isso não é um exagero.

É impossível acreditar que nenhum dos Autobots desconfie do plano dos inimigos, ou engolir que todo e qualquer plano precisa ser falado em voz alta pelo maior número de vilões possíveis (o que, bem verdade, casaria perfeitamente com todas descobertas do filmes, que são igualmente repetidas por um número enorme de personagens).

O curioso disso tudo é perceber o quanto a direção de Michael Bay continua ainda refém desse seu estilo frenético e que só parece servir para uma sequência de ação, já que tudo que vem depois (ou veio, se levarmos em conta que a maioria disso já estava em Bad Boys e A Rocha) parece igual e sem graça. Uma simples repetição de planos onde nada parece novo principalmente levando-se em conta os dois primeiros.

É indiscutível, porém que, em termos de efeitos especiais (e digitais), Bay continue na ponta dos cascos, mas, tirando uma espécie de “verme mecanizado” nada em Transformers 3: O Lado Oculto da Lua já não foi visto nos outros dois em termos visuais, o que diminui mais ainda o interesse. Para piorar (talvez sendo o primeiro carro desnorteado a causar o acidente lá do primeiro parágrafo), Bay não consegue nem ao menos equilibrar a presença dos robôs com os humanos, deixando quem entrar no cinema atrás dos dessa luta entre máquinas pode sair decepcionado com um grande punhado de humanos sendo perseguidos por vilões enlatados.

Lógico que é de cair o queixo ver aquele enorme prédio tombando em uma das sequências, mas é difícil não dar risada da desculpa que os colocou em seu alto (já que eles não atiram no alvo e menos ainda precisariam da nova namorada do protagonista para apontar um “sutil” prédio cheio de Decepticons rodeados de raios azuis), e isso só ajuda a não entender onde estão os verdadeiros heróis do filme nessas horas, que durante muitas vezes parecem relegados a chegadas depois que toda situação já foi contornada (não, não estamos falando de “surpresa eles voltaram!”, mas sim de “onde diabos eles se meteram ?”).

Em um mar de coadjuvantes totalmente sem importância com espaço demais (vide os russos e toda sequência que leva a eles, o chefe do protagonista vivido pelo desperdiçado John Malkovich, o soldado com cara de medroso o outro que carrega a bazuca e mais até um punhado de Autobots e Decepticons que passam pela trama de modo descartável) Michael Bay quase esquece do verdadeiro chamariz de Transformers 3: O Lado Oculto da Lua.

Em certo momento o espectador descobre que os robôs do bem foram subjugados pelos vilões por uma tela de monitor, já que o diretor parece ter esquecido de mostrar tal batalha, optou por algum soldado em slow motion ou, simplesmente, seguiu o caminho de uma montagem que, durante todo filme, parece fazer questão de deixar verdadeiros lapsos de tempo e espaço entre diálogos e sequências, como se, muitas vezes, o que viesse depois não fizesse a mínima questão de ser “ligado” ao que veio antes (ou você conseguiu entender a conversa entre Optimus e Sentinel Prime no meio do deserto?).

E, como se nada pudesse piorar, as duas grandes estrelas Optimus Prime e Bubblebee são relegados o primeiro a um punhado de entradas em cena para salvar todos (e sumir por um momento à procura de sua carreta que se transforma em arsenal) e o segundo, mais vergonhosamente ainda, rebaixado a pegador oficial (em Slow Motion) de humanos que estão caindo em direção a morte.

Mas com tudo isso contra, talvez Transformers 3: O Lado Oculto da Lua tenha um atrativo que nenhum dos dois anteriores teve, o de quase transformar o primeiro em uma obra de arte do cinema, já que ele nem chega perto desses 157 minutos de pura falta de sentido que Michael Bay pareceu treinar tanto para alcançar (A não ser que essa seja a idéia do cineasta, e ai sim ele acabaria merecendo uma salva de palmas no momento que as luzes se ascendessem, mas ai já é tarde). No fim, a impressão que se tem é daquele desastre cheio de carros amontoados e a voz de Optimus Prime em (mais um!) discurso vago e sem graça, e você sentado ali sem saber o que aconteceu.


Trasformers – Dark of the Moon (EUA, 2011), escrito por Ehran Kruger, dirigido por Michael bay, com Shia LaBeouf, Rosie Huntington-Whiiteley, Josh Duhamel, John Torturro, Tyrese Gibson, Patrick Dempsey, Frances McDormand e John Malkovich .


Trailer de Transformers 3: O Lado Oculto da Lua