Tim Maia

Ainda que seja brega e melodramática, a música sertaneja mostrou ao cinema nacional a possibilidade de ganhar muito dinheiro , afinal, os fãs lotaram as salas de 2 Filhos de Francisco e as cinebiografias se tornaram uma realidade. Mas entre políticos (Lula, Getúlio), personalidades (Heleno, Chico Xavier e Chatô, onde quer que ele esteja) e escritores (Paulo Coelho) que ganharam os cinemas, agora é hora de “chamar o síndico”. Hora de Tim Maia chegar com tudo.

E essa força vem de três fatores realmente impressionantes: o próprio Tim, o livro de Nelson Motta e a direção de Mauro Lima (de Meu Nome Não é Johnny). Um roteiro escrito por Lima e Nelson Pellegrino (Bruna Surfistinha) com um poder de condensação enorme e que consegue aproveitar perfeitamente bem o material do livro Vale Tudo (de Motta). Um diretor que tem a sensibilidade de perceber que é muito menor que sua história. Por fim, e muito maior que tudo isso, Tim Maia e sua personalidade gigantesca.

Sem um do três, muito provavelmente o filme nem funcionasse tão bem quanto funciona, mas (obviamente) sem Tim Maia ter vivido tudo aquilo de modo tão visceral, sem ter abandonado todos os palcos, pedidos todos agudos nos retornos e enlouquecido todos à sua volta, não existiria algo tão divertido para se contar. Diferente de Paulo Coelho e o recente e sem graça Não Pare Na Pista, Tim Maia é a maior estrela de seu filme.

Nele, quem entrar no cinema verá um filme que vai desde o gordinho entregador de comida “Tião da Marmita”, até o ápice de um dos maiores cantores da música brasileira. E essa vontade de percorrer toda a vida do personagem, coisa que quase sempre desgasta uma produção, aqui ganha qualquer espectador. Seja mais novo, vivido por Robson Nunes, ou mais velho por Babu Santana, Tim Maia na tela é sinal de alguma loucura do personagem. Uma personalidade tão forte e tão cheia de “malandragem”, que cada história se torna um momento delicioso, que só não faz falta quando acaba, pois depois disso quase sempre vem algo pior ou mais maluco.

Seja deixando o palco de lado para atacar um companheiro de banda (“Afina essa corneta negão!”), jogando pãezinhos no Roberto Carlos ou construindo uma mansão no lugar errado, Tim Maia é uma lenda tão repleta de momentos inesquecíveis que seu filme se torna um passatempo tremendamente incansável.

O livro de Motta ainda parece servir de ponto de partida orgânico para a narração de Cauã Raymond, que fica pequeno perto do trabalho do dois “Tims”, mas ainda assim nem chega perto de atrapalhar o bom andamento de seu personagem, que parece ser uma compilação de vários personagens reais que passaram pela vida do cantor. Uma opção igualmente acertada (assim como a narração divertida), pois mantém um ritmo em toda história e não precisa apresentar personagens e mais personagens para cada período de sua vida.

E ainda falando em elenco, Alline Morais surje então de maneira semelhante, como um “juntado” de mulheres que passaram pela vida de Tim, mas também fica para trás perto dos dois. E verdade seja dita, quem quer que surgisse no caminho de Babu Santana e Robson Nunes seria deixado de lado, já que os dois parecem incorporar o cantor e todos trejeitos e detalhes. Duas interpretações que ainda ganham muito mais força com uma série de diálogos impressionantemente naturais e (na enorme maioria do tempo) engraçados até o último “446”.

Coroando tudo isso, uma direção que sabe o quanto uma história no cinema é movidas por imagens, e ainda que faça apenas o “café com leite”, permite então que ela e as ótimas atuações dos protagonistas carreguem o filme. Melhor ainda, um distanciamento que ajuda a não julgar o cantor mesmo nos momentos piores e mais depressivos. Um fundo do poço e algumas péssimas escolhas que criam uma personalidade enormemente profunda e magnética.

Um filme que faz jus ao tamanho do mito criado pelo próprio Tim Maia e mostra que os sertanejos e o “é o amor” podem ter “inaugurado” uma época, mas na “vida temos que entender que um nasce pra sofrer enquanto o outro rir”.


Idem (Bra, 2014), escrito por Mauro Lima e Antônia Pellegrino, a partir do livro de Nelson Motta, dirigido por Mauro Lima, com Robson Nunes, Babu Santana, Alinne Moraes, Cauã Reymon, George Sauma, Luis Lobianco e Laila Zaid


Trailer de “Tim Maia”