Terremoto | Esqueça os blockbuster americanos


Terremoto é sobre o sensível balanço entre nossas vidas em ordem e o caos violento da natureza com que temos que conviver. Seria este um alerta ecológico ou um filme-catástrofe? Ele consegue ser os dois, e evita tomar um caminho ou outro por definitivo. E esse é o seu valor, que se mede pela quantidade de passos de distância dos filmes-catástrofe norte-americanos.

Isso porque, no fundo, se ele tentar se explicar demais o que pretende acabará por trair a própria premissa de sua história, que é abraçar a imprevisibilidade de nossas vidas, algo que nunca temos em filme de Hollywood, em que temos certeza que a família nuclear, apesar de passar por uns perrengues, sairá ilesa no último minuto. Em Terremoto essa certeza é posta em xeque de uma maneira brutal.

Não há lição de moral no final do filme. Não há provas de coragem que compensem a brutalidade dos eventos que veremos. Assim como em Elefante, o filme de Gus Van Sant, Terremoto não possui a pretensão de construir uma narrativa que funcione em cima de algo que foge ao controle humano, porque isso nos daria o poder de descobrir motivos ou causas e resolver como se conserta um pneu furado. Aqui não há pneu furado. Não é um meteoro que irá colidir com o planeta e temos como evitar. Nada pode ser feito, pois ninguém está preparado para o que o filósofo economista Nassis Nicholas Taleb chama de “Cisne Negro”: “um evento imprevisível e incalculável, geralmente com consequências extremas”.

Mas apesar de não obedecer à fórmula restrita de como fazer filmes de coragem, sua estrutura lembra muito o clichê do herói de um evento passado que não consegue se recuperar. Ele abandona a família que salvou, e nunca entendemos os motivos, pois nem ele mesmo consegue explicar e a atuação de Kristoffer Joner é enigmática demais para conseguirmos extrair algo de sua expressão. Todas suas tentativas no filme de verbalizar esse paradoxo fortalecem nossa convicção de que ele não tem a menor ideia de por que é um ser humano incapaz, apesar de confiar que é um excelente geólogo e conseguisse prever o terremoto melhor do que uma agência inteira de geologia.

E por isso o clichê do herói traumatizado não funciona como guia para o espectador, que terá que imaginar algo novo na cabeça. Algo mais realista. Nem sempre as pessoas sabem o que as afeta, e muito pior é tentar convencer os que estão em sua volta de que o apocalipse está próximo.

Este insight é maravilhoso, pois consegue se desvencilhar da fórmula americana de como “problemas” são resolvidos, geralmente com receitas de anti-depressivos. Esta obra norueguesa demonstra uma rara atitude humana em um filme com efeitos de nos fazer prender nas cadeiras e prender a respiração em pelo menos dois momentos muito pontuais, momentos esses que ficarão em sua memória após a sessão e que envolvem obviamente situações de vida ou morte. E diferente de um filme com uma explicação, sairemos da sessão sem saber o que pensar sobre o que acabamos de ver. Não estamos satisfeitos. Não houve a resolução do conflito interno do herói. Nos lembraremos disto para sempre, enquanto os heróis americanos repousam em nossa memória como uma cópia de uma cópia de uma cópia.

Esta é uma continuação do segundo filme-catástrofe roteirizado pela dupla norueguesa John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg. O primeiro filme, A Onda, foi enviado para concorrer ao Oscar como melhor filme-estrangeiro. Para os que assistirem apenas este segundo (meu caso), a primeira cena, quando um geólogo anônimo for aplaudido efusivamente por uma plateia de uma programa de televisão, o significado será diferente. Para quem o vê pela primeira vez, este é um filme em que os heróis anônimos valem mais do que cientistas burocratas.

O diretor de fotografia John Andreas Andersen toma as rédeas da câmera pela terceira vez em sua carreira e realiza um trabalho original em cima de uma tonelada de clichês. É difícil perceber o que ele está querendo dizer por trás de um suposto blockbuster, mas no momento em que entendermos que este é mais um drama do que seus efeitos, as coisas começam a fazer mais sentido.


“Skjelvet” (Nor, 2018), escrito por John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg, dirigido por John Andreas Andersen, com Kristoffer Joner, Ane Dahl Torp e Edith Haagenrud-Sande.


Trailer do Filme – Terremoto

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