Tempo de Caça | Nervoso, tenso, violento e imperdível


No mesmo ano que um filme sul coreano ganhou o Oscar, começar a ignorar a produção desse país seria um desperdício enorme. Ainda mais quando você tem a oportunidade de conferir essa pérola lançada pela Netflix, Tempo de Caça.

A produção é o segundo longa do diretor Sung-hyun Yoon, e mostra uma faceta corriqueira do cinema da Coréia do Sul, a ideia de que nem todo filme de gênero precisa estar preso a um gênero só. O próprio Bong Joon Ho fez bem isso em filmes como O Hospedeiro e até no próprio Parasita. Portanto, prepare-se para ser surpreendido.

Tempo de Caça começa óbvio, com esse quarteto de amigos de longa data que segue a ideia de um deles, recém-saído da prisão e cheio de contatos e sonhos. Um último trabalho, um roubo de uma espécie de cassino clandestino. É lógico que quando você percebe que a ação deu certo demais e cedo demais no filme, começa a imaginar que ainda deve vir mais coisa adiante.

Através de uma desculpa não muito criativa, o quarteto acaba então sob a mira de um assassino psicopata contratado pelos mafiosos donos do cassino. Logo, muito antes de você perceber, Tempo de Caça deixa de ser sobre um roubo, ou até sobre esse McGiffin (um disco rígido), e se torna um terror psicológico dos bons. Melhor ainda, um slasher bem divertido.

Tudo isso em um futuro que não parece ser muito distante, mas que se permite ser um lugar repleto de pobreza e meio esquecido pelo mundo, o que torna o clima perfeito para ambos os diferentes lados do filme. De um lado, esse roubo em um cenário urbano cheio de concreto e com a impressão de que o distanciamento das camadas da sociedade nunca foi tão grande.

Esses quatro amigos são vítimas desse sistema falido, não existe esperança para nenhum deles e falar em pequenos golpes e roubos parece ser algo comum dentro daquele mundo. É fácil entender suas motivações, portanto, é mais fácil ainda torcer por eles e ficar apreensivo diante de cada detalhe que pode dar errado. Ainda que esse primeiro momento seja menos empolgante e mais comum, o esforço para construir esse mundo é válido e sustenta tudo que ainda está por vir.

O segundo momento de Tempo de Caça (esse “outro lado”) não extrapola erros ou uma ação que dá errado, mas sim apenas cobra a conta do inevitável. Os quatro amigos simplesmente deram azar, o resultado disso é a entrada em um mundo onde nenhum deles mais tem poder e precisarão apenas responder ao mundo ao seu redor. Diante da tentativa de serem livres e independentes dessa realidade que os afugenta, acabam reféns de uma ainda mais violenta e implacável.

Han (Hae-soo Park) é um assassino de filme slasher do tipo mais sádico e perigoso, andando calmamente em direção a suas vítimas, mas também fazendo questão de acabar com a saúde mental dos protagonistas. Não existe susto, mas sim um caminho inevitável em que eles sabem que não conseguirão dar conta do misterioso inimigo.

Por mais que a direção de Sung-hyun Yoon comece esforçada, mergulhando nos protagonistas, indo e voltando, se mexendo muito e criando esse clima moderno, seu grande acerto está na segunda parte de Tempo de Caça. Yoon transforma seu filme em uma experiência nervosa, tensa e violenta. Sua câmera sabe se posicionar e entende as necessidades da cena, dos ângulos baixos que agigantam o vilão, ao posicionamento no alto que esprema seus protagonistas no chão, diminutos e vitimados pela situação inteira. O diretor ainda extrapola mais ainda esse “estilo clássico” do gênero ao não perder nenhuma oportunidade de se colocar por trás dos cantos, obstáculos e qualquer coisa que faça seu espectador sentir aquela sensação de estar espiando algo proibido.

Yoon ainda aproveita bem o cenário ao seu redor. Como um bom filme de terror, Tempo de Caça acompanha seus protagonistas em uma cidade vazia e tomada por uma névoa densa e desesperadora. O sonho de conseguir vencer o mundo e fugir para uma praia onde até a água do mar tem outra coisa, se torna, literal e visualmente, um pesadelo enquanto esse desejo final ainda está longe.

E quando você percebe que ainda haverá esperança, Yoon não finge se esconder por trás da trama, mas sim “compra essa briga”, parte para cima e deixa para trás esse segundo momento, se permitindo ser claro e corajoso, com o peito aberto e descarregando o pente de sua metralhadora, afinal essa é a única chance de se salvar.

Tempo de Caça é um filme com personalidade, que não se esconde pelos caminhos mais fáceis dos gêneros, embarca em todos eles com arrojo e uma vontade de não se permitir ser só mais um filme de ação esquecível. Toma gosto pela sensibilidade de seus personagens e não se permite acabar com um tiroteio, mas sim com o legado de dor que tudo isso provoca, tentando entender o quanto é complicado sobreviver e como, às vezes, o único jeito deixar o passado para trás e voltando para enfrenta-lo.


“Sanyangeui Sigan” (KOR, 2020); escrito e dirigido por Sung-Hyun Yoon, com Lee Jehoon, Jae-hong Ahan, Woo-sik Choi, Jung-min Park e Hae-soo Park.


Trailer do Filme – Tempo de Caça

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