Suor | As ilusões das redes sociais

Suor, co-produção entre Polônia e Suécia, ilustra algo já bastante enraizado em nossos cotidianos: as redes sociais fazem parte de nossas rotinas há tantos anos que a forma com que nos relacionamos com elas já passaram por várias fases. Hoje, temos mais consciência da forma com que o conteúdo consumido nesses espaços nos afeta e molda não apenas o jeito com que enxergamos uns aos outros, mas como vemos a nós mesmos — assim, as vidas aparentemente perfeitas cada vez mais dão lugar a postagens mais espontâneas e sinceras.

O problema, é claro, é que toda essa espontaneidade e sinceridade também são milimetricamente calculadas, principalmente quando falamos dos influenciadores digitais (profissão cuja existência é intrinsecamente ligada às próprias redes). Durante uma sessão de treino em um shopping center, a influencer fitness Sylwia Zajac (Magdalena Koleśnik), ao sugerir a já tradicional selfie com o público, afirma ter esquecido seu selfie stick e, então, sobe nos ombros do colega Klaudiusz (Julian Świeżewski) para tirar a “foto perfeita” — assim transformando um momento banal em possível fonte de fofocas sobre um suposto romance entre eles, por exemplo.

Suor sequer chama a atenção para esse instante; na vida de Sylwia e das pessoas que a cercam, tal demonstração de espontaneidade calculada é tão recorrente que, ironicamente, se torna natural. Isso também acontece nos momentos em que ela (que está quase sempre com seu celular nas mãos, mesmo quando não está trabalhando — ele se torna quase que uma fonte de conforto), percebendo-se fora dos “holofotes” mesmo em situações pessoais como o aniversário de sua mãe, passa a se comportar de forma a recapturar todas as atenções para si mesma.

Além disso, é impossível ignorar a ironia de vermos a protagonista bela, jovem e totalmente dentro dos padrões disparando mensagens de auto-estima e amor próprio, enquanto atua ela mesma como fonte de reforço do padrão — algo que ela negaria veementemente fazer e, pior, estaria sendo sincera. Nesse aspecto, Suor ilustra muito bem a forma sutil com que as redes sociais atuam — ou melhor, com que as pessoas atuam por meio das redes sociais, que se tornam mais uma ferramenta para criar e reforçar padrões impossíveis de maneira cada vez mais cruel e, muitas vezes, imperceptível.

Tão inteligente na maneira com que compreende sua protagonista e o universo em que ela circula, o longa-metragem infelizmente não consegue ter a ousadia de se assumir como um estudo de personagem que simplesmente acompanha a rotina de Sylwia por alguns dias; uma trama mais tradicional é inserida de forma bagunçada e mal consegue se encaixar no restante da obra, quanto mais se justificar.

Falo da inserção do stalker que, depois de ser percebido pela influenciadora, torna-se parte central da produção de tal forma que parece que o diretor e roteirista Magnus von Horn não sabia exatamente o que queria dizer com aquele personagem e com a relação estabelecida entre ele e Sylwia.

Porém, Suor se recupera a tempo de encerrar o longa com excelência: em nossa atualidade, uma demonstração de real honestidade e vulnerabilidade, como o vídeo em que Sylwia desabafa sobre se sentir sozinha, torna-se polêmica e é visto como exploratório, desesperado. Ao quebrar a imagem de perfeição e otimismo que os outros têm dela, e que ela mesma inegavelmente ajudou a construir, isso é visto como algo a ser combatido.

von Horn também acerta na maneira com que exibe os conteúdos postados por Sylwia no Instagram, que aparecem de formas variadas ao longo da projeção. Nesse sentido, destaca-se a série de stories em que Sylwia narra empolgada sua visita à manicure e que logo viram narração em off diante das imagens dela em seu estado real naquele momento — o que nos leva ao belo, e triste, momento em que o rosto melancólico da protagonista é sobreposto à sua voz animada anunciando que, por estar se sentindo alegre, escolheu um esmalte rosa para suas unhas por ser uma “cor positiva”.

Suor se estabelece, portanto, como um triste e certeiro retrato de nossa atual relação com as redes sociais e com as formas com que elas tanto refletem quanto criam os problemas de como nos relacionamos hoje uns com os outros e com nós mesmos.


Sweat” (Polônia/Suécia, 2020), escrito e dirigido por Magnus von Horn, com Magdalena Koleśnik, Julian Świeżewski, Aleksandra Konieczna e Zbigniew Zamachowski.


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