Sucker Punch – Mundo Surreal

Ainda que corroborado por um visual inegavelmente impressionante, é impossível não perceber um imenso vazio narrativo com que Sucker Punch – Mundo Surreal tenta sobreviver. Pior ainda, com a certeza absoluta que seu criador Zack Snyder (de 300 Watchmen)  está pouco se importando com isso, já que, “o que são as palavras sem um pouco de ação”, como um de seus personagens lembra em certo momento.

Para Snyder, tudo parece uma questão de estilo, nesse mundo onde um plano fechado de um botão voando ao chão em câmera lenta não precisa contar nada, mas, caramba, como fica bonito e transporta seu espectador (quase) para as páginas de algum gibi. O problema disso é que tamanho apuro visual impede o filme, mesmo com tantas possibilidades, de ter qualquer sutileza, subtexto ou oportunidade de ser destrinchado em uma segunda visita (já que nenhum significado é nada menos que esfregado na cara do espectador, que, verdade seja dita, não precisa de mais que meia dúzia de neurônios para se divertir com essa ensandecida experiência).

Nela, essa história escrita pelo próprio diretor em parceria com o estreante Steve Shibuya, acompanha a vida dessa jovem (que mais tarde ganha a alcunha de Baby Doll, vivida por Emily Browning) que, depois da morte da mãe, acaba se vendo, junto com a irmã mais nova, nas mãos do padrasto cheio de más intenções, até que, em resultado de uma briga violenta (talvez aqui uma surpresa que pode ficar para quem estiver vendo o filme) a garota acaba indo parar em um hospício sujo e violento. Diante disso, só sobra então a ela, a possibilidade de fugir para um mundo fantasioso (dentro de sua mente) para escapar dessa dor, é ai que o show de Snyder tem começo.

É preciso aceitar, porém, que o diretor faz o trabalho enxuto e estrategicamente bem pensado dentro da trama, não só nesse início, como também para posicionar os personagens nessa trama, e só não o faz de modo impecável por, justamente, apostar em uma quase infantilidade narrativa para contar sua história. Sem pestanejar, ele passeia com sua câmera por uma série de referências visuais enquanto acompanha a personagem em sua chegada, esfregando na cara de todos que, mais cedo ou mais tarde, elas estarão lá para serem revistas. Pior ainda, para facilitar um andamento menos depressivo Snyder, logo de cara, possibilita que sua protagonista vá para um “mundo âncora” para fugir do inevitável (ainda que no fim isso se inverta um pouco).

Diante desse ponto de partida, dessa primeira camada de consciência, onde ele não precisaria ficar tratando de personagens mentalmente hospitalizados, Baby Doll se transforma em uma órfã deixada em um cabaré por um padre (aqui a aposta de Snyder já fica clara, com tudo e todos às voltas da personagem sendo um reflexo deturpado de sua realidade). Um lugar onde ela, agora ganhando a companhia de mais quatro garotas (com seus nomes também cheios de estilo: Sweet Pea, Rocket, Amber e Blondie), dançarinas desse lugar (além de óbvias outras coisas, ainda que essas não precisem ser discutidas), podem colocar seu plano de fuga em andamento. Mas não se aquiete, Snyder ainda está, na verdade, guardando seu ás na manga.

Se, uma das primeiras coisas que a protagonista escuta ao chegar no hospício é que essa realidade pode ser controlada, Sucker Punch – Mundo Surreal então dá o último passo em direção a três mundos fantásticos onde o grupo de moças, agora devidamente transformadas em uma espécie de batalhão tático armado até os dentes, e com roupas provocativas, que devem obter cinco itens (isso mesmo itens, como em um jogo de vídeo-game sem imaginação) para conseguirem a liberdade. É óbvio que, diante da personalidade de Snyder, e sua vontade de criar a melhor cena de ação possível, tudo que vem antes desse momento parece estar lá só para encher lingüiça, já que, Sucker Punch – Mundo Surreal é, na verdade, sobre essas garotas derrubando, atirando, pulando e cortando o maior número de criaturas, robôs, zumbis e dragões que o filme as possibilitaria fazer.

Se por um lado, essa falta de desculpas para juntar todas essas referências pop dão ao filme uma vitalidade divertidíssima, um clima empolgante e a possibilidade de poder tentar entender até onde pode ir esse limite visual de Snyder (que, de verdade, parece não ter fim e, por si só, junto com uma direção de arte realmente impressionante, já valem o filme), por outro, todo esse arroubo parece ser costurado por uma infantilidade lógica e sem surpresas. “Sucker Punch” talvez não queira ser esse filme profundo, mas o cinema está tão cheio de outros momentos onde a psique de seus personagens (e seus mundos surreais) foram visitados, que aqui, o resultado parece ser mastigado demais até para o mais preguiçoso dos espectadores. Snyder entra na cabeça de sua personagem de modo atabalhoado, fácil e óbvio, sem tentar fazer absolutamente nada de diferente.

É impossível não se irritar com as tentativas irônicas de dar a Blondie (que quer dizer “loirinha” em inglês, e é vivida por Vanessa Hudgens, estrela de High School Musical, talvez tentando algo novo em sua carreira) um cabelo escuro, assim como chega a ser vergonhoso a personagem Rocket ter um problema com seu foguete (vulgo “rocket” na língua original, vivida por Jena Malone), e ainda que isso só aconteça, pois aquilo tudo se passa na cabeça da protagonista e seu subconsciente é quem procura esse nomes e referências, não custaria ao roteiro tentar fazer algo um pouco mais consistente ao invés do isqueiro no bolso do personagem (com um dragão cravejado) se transforma em duas pedras que dão fogo, presas dentro do pescoço de um dragão. Soluções pueris demais para um filme que aposta suas fichas em uma heroína vestida de colegial (com sainha rodada e camisa de marinheiro) para a felicidade fetichista do público masculino.

Talvez, Snyder até tenha a sensibilidade de perceber esse vazio narrativo e acabe compensado-o com o visual, com o som e a música estourando os falantes, os efeitos especiais (e digitais) e todo resto desse mise-en-scene histérico, enganando muita gente e deixando que Sucker Punch – Mundo Surreal acabe fingindo ser um filme bem maior do que realmente é. Mas ainda assim, se existe um limite na hora de mostrar ao seu espectador objetos caindo no chão em slow motion e um desfile de “violência de mentirinha” (já que samurais robôs, zumbis robôs, robôs robôs e orcs, tem a permissão da censura para serem estraçalhados, e os jatos de sangue então serem substituídos por fluídos, vapor e fios de luz), Zack Snyder ainda não o atingiu, e com isso, vai fazer muita gente (a grande maioria) sair do cinema satisfeita (e cega) com todo esse samba do crioulo doido (na melhor das definições).


Sucker Punch (EUA/Can, 2011), escrito por Zack Snyder e Steve Shibuya, dirigido por Zack Snyder, com Emily Brownin, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Scott Glenn e Jon Hamm.