Submersão | Win Wenders cria uma incrível história de amor

Submersão Filme

submersão é a volta do diretor Win Wenders para o circuito mais comercial após sua experimentação com Os Belos Dias de Aranjuez. Aqui ele mostra como um romance adaptado (J.M. Ledgard) consegue ser bem feito quando o autor entende as motivações por trás dos seus personagens. Primeira adaptação do roteirista Erin Dignam, ele constrói uma narrativa até que padrão, e mesmo assim o resultado varia entre interessante a fascinante em vários momentos.

Boa parte disso é graças à dupla de atores Alicia Vikander e James McAvoy, que com poucas mas poderosas falas (“isso é outro mundo dentro de nosso mundo”, “a solução para seus problemas é o que eles têm de mais lindo: acreditar em algo”) conseguem resumir seus valores um para o outro sem soar cafona, mas pertinente à profissão de cada um, além de apresentar uma química invejável desde o primeiro momento. Tanto que no segundo e terceiro ato, quando não mais estão juntos, é como se ainda estivessem. Sentimos suas lembranças, que se tornam mais fortes (quando as ouvimos e vemos) conforme a situação em que cada um se encontra se torna cada vez pior.

A beleza de Vikander é enorme em qualquer lugar do mundo, mas o que a torna realmente bela é a naturalidade de sua personagem em tomar as rédeas de sua vida profissional e amorosa. Ela é na verdade uma sueca contracenando com um ator escocês em um filme produzido na França e Espanha dirigido por um alemão. A beleza de Submersão é que a nacionalidade ou o local para onde seus personagens precisam ir são meros acidentes geográficos, pois o que nos une parece ser a solidão, como a que o personagem de McAvoy sente ao ser um prisioneiro e delirar que está dentro de um bunker onde milhares de soldados foram mortos na guerra. Quando a personagem de Vikander diz que pela primeira vez se sente sozinha seu colega de pesquisa retruca mais uma frase extremamente pertinente ao tema do filme: “bem-vinda ao planeta”. O texto de Ledgard adaptado por Dignam une diferentes contextos – cotidiano, ciência, religião, história – para falar sobre o mesmo substrato.

James McAvoy demonstra mais uma vez que é um ator versátil, embora não se saia tão bem em sua caracterização de um prisioneiro em uma solitária por mais de um mês sem saber se sairá vivo. Para isso contamos com a direção de Wenders e a edição de Toni Froschhammer, que emplacam sequências de planos diagonais com fades e uma maquiagem de machucado extremamente orgânica na face do ator. O uso de luz e sombra de dentro de sua solitária também é digna de nota. Principalmente quando ele segura em sua mão uma fruta bichada, seu único alimento, e ele quase é incapaz de enxergar o quão estragada ela está antes de dar uma mordida e ir vomitar.

Submersão Crítica

Este é um filme também que trabalha sua direção de arte de maneira metalinguística ao tema. Note como o azul é constante dentro dos recintos onde está Vikander, e sua própria roupa ou está totalmente azul ou contém traços mais sutis. De qualquer forma, o azul é um elemento representativo de várias formas no longa, que vai da escassez e exploração da água em áreas de guerra até nosso subconsciente ancestral evolutivo (“não é do pó ao pó, mas da água à água”).

Esta também é uma história que não nos poupa dos detalhes fortes que ela contém, com a dor e o sofrimento constantes sendo o principal estigma que o personagem de McAvoy irá encontrar em sua jornada. As explicações sobre a conduta dos terroristas e ditadores, no entanto, foge um pouco do controle da desculpa religiosa, se tornando fraca na tentativa de humanização daquelas pessoas. O que é natural quando vemos um apedrejamento e uma criança sendo baleada. Por mais que um personagem letrado da região conturbada da Somália explique que os homens-bomba são drogados para evitar pensar muito no que fazem, nenhuma das justificativas morais do filme soam mais do que meros paliativos culturais para atos de atrocidade.

Submersão é um filme que tenta unir a todos nós como espécie, ou a própria vida e sua origem, através de mensagens que remetem a todos os tipos de conhecimento que podemos ter a respeito da natureza humana. Para isso, ele emplaca em um rápido romance que é tudo menos banal, e em seu tom dramático (música de Fernando Velázquez e sua orquestra nacional Basca) explora as conexões que temos neste planeta, seja com outros povos ou com nossa própria origem, submersos no eterno vazio, sozinhos vivendo a breve aventura da vida.


“Submergence” (Ale/Fra/Esp/EUA, 2017), escrito por Erin Dignam, à partir do livro de J.M. Ledgard, dirigido por Wim Wenders, com Alicia Vikander, James McAvoy, Alexander Siddig.


Trailer – Submersão

3 Comments

  1. Olá Wanderley…obrigada pela resposta. Temos opiniões diferentes sobre o McAvoy, a quem considero o melhor e mais versátil ator contemporâneo, mas pelo menos concordamos sobre o filme. 🙂

    E vamos continuar a amar o cinema! 😉

  2. Olá, Cristine. Obrigado pelos elogios. Para mim McAvoy tem uma presença de cena sempre positiva em seus personagens, e demonstra energia sem controle eficaz em O Procurado e uma energia que vai aos poucos se configurando em um drama pessoal na série X-Men. Porém, aqui não é o caso, onde como agente secreto sua resiliência em ser prisioneiro por infindáveis dias sob pressão psicológica parece inacreditável demais. Mais inacreditável ainda por compreendermos que esta é uma missão que pela primeira vez na vida ele tem algo a perder.

    Obrigado mais uma vez pelo seu comentário e por amar o Cinema como nós =)

    []s

  3. Adorei sua resenha…o filme é lindo, mas infelizmente tem sido muito maltratado pela crítica, sem razão, acredito.

    Só não entendi essa parte “James McAvoy demonstra mais uma vez que é um ator versátil, embora não se saia tão bem em sua caracterização de um prisioneiro em uma solitária por mais de um mês sem saber se sairá vivo.” Você acha que ele não atuou bem nessa parte? O achei incrível, parecia um sofrimento realmente vivenciado, não uma atuação. Agradeço se puder esclarecer! 🙂

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