Star Wars: A Ascensão Skywalker | Um final covarde para uma saga que mudou o mundo


Por 42 anos os Lordes Sith tentaram acabar com a rebelião liderada por Leia, Han e Luke, mais tarde, com Rey, Finn e Poe Dameron. Não conseguiram. Uma luta há muito tempo atrás em uma galáxia distante. A grande ironia, quatro décadas depois e tendo se tornado um dos maiores bastiões da cultura pop e que quem acabou com tudo não estava nem naquela galáxia. Star Wars – A Ascensão Skywalker é um desastre e a culpa dos fãs.

Mesmo rendendo US$ 1,3 milhões para os cofres da Lucasarts e da Disney, Os Últimos Jedi, vulgo Episódio VIII, despertou uma ira na base de fãs de Star Wars que chacoalhou os pilares do universo nerd/geek. Rian Johnson teve a oportunidade de fazer um filme com personalidade e único (talvez o melhor da saga), mas ele era diferente. E “diferente” não parece fazer parte do linguajar dos fãs. O filme era único, representativo, corajoso e inteligente.

Aparentemente os fãs queriam mais do mesmo e agora, nesse nono filme da saga da família Skywalker, J.J. Abrams (que já tinha dirigido o empolgante O Despertar da Força) volta ao comando com a responsabilidade de agradar os fãs que estavam chateados, destruir o trabalho impecável de Johnson e entregar um final previsível, óbvio, burro e, mais do que tudo, covarde.

Depois de conseguirem fugir da primeira ordem e derrotar Kylo Ren (Adam Driver), os rebeldes agora se reestruturam sob o comando da General Leia (Carrie Fisher) e da esperança de Rey (Daisy Ridley), que se afasta para treinar e se tornar uma jedi ainda mais forte. Até aí, tudo ótimo, com a dupla Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) pelo espaço na Millenium Falcon, mas o roteiro escrito pelo próprio Abrams em parceria com Chris Terrio (que ganhou um Oscar por Argo, mas escreveu/cometeu Batman Vs. Superman e Liga da Justiça) só quer mesmo é ser uma repetição idiota.

Kylo Ren procura pela galáxia o seu verdadeiro adversário e encontra Palpatine, ainda vivo, no planeta dos Sith (que aparentemente é famoso, mas nunca apareceu nos cinemas). O agora Lorde Supremo Kylo Ren é então manipulado pelo Lorde Sith, assim como seu avô, sua missão, matar Rey, já que ele acha que sabe, mas não sabe nada sobre o passado dela.

Sim, todo o esforço de empoderamento de dois filmes, criando uma das personagens mais legais e interessantes do cinema, vai por água abaixo. Rey não veio do nada, lutou, enfrentou seus medos, errou, aprendeu, lutou contra a tentação do lado escuro, venceu Kylo Ren e salvou Leia e a rebelião, ela agora é o resultado do “passado de alguns caras” (tentando não dar nenhum spoiler).

O esforço de Abrams em destruir a personagem é tão grande que, mesmo depois de acabar o filme anterior no ápice de sua força, movendo as pedras e livrando o caminho dos seus amigos, nesse, logo na primeira cena, ela simplesmente deixa cair meia dúzia de pedrinhas enquanto medita. Seu caminho então é indicado através dos outros, seja da Leia em um diálogo coach, seja do robô que traduz a mensagem de uma adaga, ou de um certo fantasma, que surge para não deixar que ela desista. O final é ainda pior, mas vamos tentar ficar sem os spoilers.

E tamanho desperdício só acontece em razão daquela covardia que eu citei lá mais para cima. O público nunca quis uma heroína independente e poderosa, a arma deles foi sempre cobrar uma coerência narrativa exclusiva, já que nunca fizeram esses mesmos questionamentos quando a figura central da trama era Luke Skywalker. Abrams não foi corajoso ao ponto de bancar o protagonismo histórico de Rey e isso é um tiro de blaster no próprio pé.

Diminuir a força dela é o mesmo que redistribuir esse interesse para o elenco, e não pense que a atenção foi para Finn, o felizardo é, obviamente Poe Dameron. Finn é simplesmente impedido de manter seu relacionamento com Rose Tico (Kelly Marie Tran), porque, “sabe como é, ela vai ficar na base, ajudando a Leia”, o que o leva a uma jornada onde ele descobre que ele não é mais único e o que não faltam são ex-stormtroopers, ficando até amigo de uma delas Jannah (Naomi Ackie), que também é negra e no final ainda fica amiga do “sumido” Lando Calrissian (Billy Dee Williams voltando para matar as saudades de quem não entendeu que ele é um traidor). Resumido, Abrams acha que o melhor para a saga é ter uma espécie de “núcleo negro” e acabar um pouco com essa miscigenação.

E se isso parece pesado, acredite, ainda fica pior, já que Dameron ganha uma pitadinha do passado, encontra uma antiga namoradinha, dá em cima dela e se torna uma espécie de conquistador barato e elegante. Fica óbvio que Dameron e Finn ganham duas parceiras femininas para que parem de dizer por aí que eles são um casal. E se alguém disser que um beijo gay no final, entre duas personagens que você não sabia da existência até aquele momento, provam que Abrams não estava preocupado com a proximidade dos dois protagonistas, só corrobora com essa impressão de preconceito estrutural.

E por mais que Abrams entregue um espetáculo visual irretocável, ainda maior que O Despertar da Força, A Ascensão Skywalker é ainda movido, única e exclusivamente pela necessidade de dar aos fãs a maior quantidade de referências que o filme conseguiria suportar. O resultado é um desserviço tão descomunal que cria um ambiente onde absolutamente nada no filme é minimamente novo.

Abrams conta mais uma vez a história do grupo de protagonistas que se dividem entre uma equipe em solo tentando desligar qualquer tipo de máquina e uma tropa de naves voando em uma missão suicida, lógico, até o último segundo, onde tudo dá certo e tudo explode. Enquanto isso está acontecendo, Rey, obviamente, está enfrentando Palpatine, mas isso é tão previsível que dá sono (o discurso dele principalmente) e você começa a torcer para os Sith dominarem logo todo universo e, quem sabe, nesse novo momento surja uma história mais interessante do que essa que está sendo contada.

O desperdício continua. Os Cavaleiros de Ren, tão esperados, ficam zanzando por aí sem nada que fazer. Os troopers da Ordem Final, vermelhos… bom, você nem verá eles direito. Já o C3PO, depois de um aparente arco interessante, envolvendo uma adaga sith que beira a idiotice à lá Lara Croft, parece ganhar uma opção bacana, mas ela dura sete segundos e tudo volta ao normal.

E talvez isso seja o que mais chegue perto de desvendar A Ascensão Skywalker. Tudo bem, C3PO ganha a possibilidade de ser um personagem novo e não repetir a fórmula que estava esmagando-o desde sempre, mas aproveite que é por pouco tempo, já que logo um cara velho, ranzinza e que acha que é o ponto mais importante da trama, o R2-D2, irá fazer com que ele volte a ser aquele mesmo droide de sempre. Sim, o R2 é essa base de fãs que só quer seu ego lustrado enquanto tenta impor seus preconceitos e falta da capacidade de entender o que está vendo, na frente da qualidade do filme. Esse fã não quer um filme, quer um filme seu.

A nostalgia do “mais do mesmo”, do pensamento retrógrado de que só o que é velho presta, afundou a terceira parte da trilogia Star Wars em uma morte triste e covarde. E as palmas no cinema são apenas o resultado deplorável desse ódio pelo novo.


“Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker” (EUA, 2019), escrito por J.J. Abrams e Chris Terrio, dirigido por J.J. Abrams, com Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Adam Driver, Carrie Fisher, Naomi Ackie, Domhall Gleeson, Richard E. Grant, Keri Russel, Mark Hamill, Billy Dee Williams e Kelly Marie Tran.


Trailer do Filme: Star Wars – A Ascensão Skywalker