Soul | Feche os olhos e sinta


Talvez seja prematura dizer que a Pixar desistiu das crianças, entretanto é preciso discutir o quanto certos diretores ligados à empresa simplesmente parecem dar essa impressão. Soul é o quarto longa de Pete Docter na Pixar (Monstros S.A., Up e Divertida Mente) e seu amadurecimento o levou a um lugar que, realmente, não é para crianças. Mas é bom deixar claro que isso não é um problema, muito pelo contrário.

Através de uma animação impecável, Docter, que também escreve o roteiro em parceria com seu co-diretor Kemp Power e ainda Mike Jones, conta uma história que discute morte, vida, metafísica, esperança, reencarnação, jazz e arte com uma precisão e uma potência que arremessam Soul para o topo da lista de melhores filmes do ano de qualquer pessoa com bom senso e coração.

A trama acompanha Joe, um professor de música meio frustrado que tem a oportunidade de tocar em um show de um jazzista famosa, mas depois de conseguir a “gig”, acaba caindo em um buraco e “acordando” em sua forma astral em direção à famosa “Luz”. Tentando fugir disso e voltar para seu corpo, acaba dando de cara com 22, uma “alminha” que está na fila para encarnar, precisando apenas da ajuda de um mentor.

É lógico que o filme não ignora os pequeninos e no meio disso tudo atrela um visual bonitinho e uma jornada fácil de acompanhar até a lição final, mas Docter nem por um segundo esconde que está interessado é no resto. E leia “resto” como a maioria esmagadora dos conceitos e ideias de Soul, tanto narrativas, quanto visuais.

Talvez nenhum outro filme da Pixar tenha um visual tão impecável quanto Soul. E se isso pode parecer exagero, uma olhada na incidência de luz do “mundo real” de Joe é tão embasbacante que é difícil não se perder em cada frame de Soul. Do “lado de lá”, o que é abstrato e conceitual ganha forma de modo criativo e firme. O contraste é tão significativo e lindo que talvez você se esqueça de tentar entender esses conceitos.

A ideia do “Jerrys” e demais “funcionários” do Além serem esses fios modernistas e que buscam facilitar a compreensão dos seres humanos é completamente genial e cria uma sensação de duas dimensões em um mundo onde a terceira dimensão ainda é o único meio que entendemos o mundo como ele é. É essa terceira dimensão que é um espetáculo de luz no “mundo normal”, assim como é falta dela que constrói essa abstração visualmente complexa do “outro lado”.

Ainda dentro das “abstrações”, Docter bebe um pouco na fonte de seu filme anterior, o igualmente sensacional Divertida Mente, para brincar com esses conceitos enquanto cria esse mundo etéreo. Da criação das personalidades das alminhas até os estados de consciência expandida, Soul não se permite nunca ser só sobre uma história, mas sim busca um sentimento que irá guia-lo.

Mesmo enquanto está confortavelmente de volta ao “mundo normal” para completar sua jornada de aventura enquanto os personagens aprendem o real significado daquilo que importa, são as ideias que movem Soul. A principal delas talvez surja em um diálogo sobre um peixe perguntando a um ancião onde fica o oceano. A resposta é óbvia, o oceano sempre esteve ali, mas é preciso prestar atenção nos detalhes para descobrir isso. Joe não consegue enxergar seu oceano e precisa dessa jornada para valorizar o que nunca deixou de ter.

O que completa essa viagem é mais um trabalho irretocável da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, que deixam de lado a parceria com David Fincher e o Oscar por A Rede Social para criar uma trilha sonora que segue as intenções conceituais de Docter tão à risca que parecem criar um filme só para as músicas. É lógico que estamos falando de Jazz, mas os acordes improvisados clássicos do “mundo real” dão lugar a composições que beiram um experimentalismo existência do Além. Tudo se completa de modo preciso, intenso e criando um ritmo que dita a ação com um vigor impressionante.

Soul precisa ser sobre o som, já que é ele que dita a jornada do personagem, sem uma trilha sonora que deve ser lembrada como uma das melhores coisas de 2020 no cinema, o filme da Pixar nunca encontraria toda essa perfeição.

O filme de Docter é sobre Jazz e sobre encontrar seu oceano, mas talvez mais do que isso, seja o resultado da tentativa de explicar o sentimento que você tem quando fecha os olhos e se deixa levar por uma música, um pensamento, um sabor ou até um momento único. Soul é sobre sentir e é impossível acabar de vê-lo sem sentir isso e pensar a respeito de seu oceano.


“Soul” (EUA, 2020); escrito por Pete Docter, Kemp Power e Mike Jones; dirigido por Pete Docter e Kemp Power; com vozes no original de Jamie Foxx, Tina fey, Graham Norton, Rachel House, Alice Braga, Richard Ayoade e Angela Bassett