Somente o Mar Sabe | Uma viagem desorientada que não chega a lugar nenhum

Somente o Mar Sabe Filme

A história de Donald Crowhurst e de sua tentativa de circunavegar o planeta (que eu não conhecia) não é um conto inspirador, mas uma demonstração do que a pressão e o medo do fracasso podem fazer a um homem. Entretanto, Somente o Mar Sabe parece não compreender isso muito bem, já que investe em uma caracterização rasa e em motivações pouco embasadas que fazem com que, ao chegar a sua conclusão, o longa pareça tão desorientado quanto seu protagonista.

Donald Crowhurst (Colin Firth) é dono de uma pequena empresa na qual inventa uma diversidade de gadgets para aprimorar e facilitar a navegação em alto-mar. Ele próprio adora passear em seu pequeno barco ao lado da esposa, Clare (Rachel Weisz) e dos três filhos pequenos. Entretanto, Donald está cansado de proporcionar os meios para as aventuras dos outros e, agora, quer ele mesmo entregar-se a um grande desafio proposto pelo experiente navegador francês Francis Chichester, que circunavegou o mundo parando apenas uma vez. A missão, agora, é repetir o feito, mas sem nenhuma parada.

Mesmo inexperiente e sem os recursos necessários, Donald consegue atrair patrocinadores e publicidade suficientes para construir um barco que tem tudo para dar conta do recado. Ou, pelo menos, teria, se os recursos financeiros fossem suficientes para deixá-lo pronto a tempo da data-limite para a partida. Fugindo da humilhação e da ruína que ocorreria caso desistisse (a perda de sua casa e de sua empresa seria tão trágica quanto a imagem de fracasso que ele acreditaria estar deixando para os filhos), Donald decide trapacear e falsificar seus diários de bordo, fazendo parecer que ele realmente aventurou-se ao redor do mundo sem que ele precisasse arriscar-se em um barco incapaz de aguentar tal jornada.

No primeiro ato, Colin Firth faz de Donald um homem criativo e dedicado a dar o melhor para sua família, mas que sucumbe ao peso da sensação de impotência e de mediocridade e, por isso, decide provar para si mesmo, para a esposa, para os filhos e para toda a população da pequena cidade costeira de Teignmouth, na Inglaterra. O diretor James Marsh (de A Teoria de Tudo¿) e o roteirista Scott Z. Burns retratam bem essa fase do protagonista, que estabelece-se como o herói de uma boa e velha história de um homem comum envolvido em uma situação extraordinária.

Somente o Mar Sabe Crítica

O problema é que essa não é a história de Donald. Conforme ele vai entregando-se ao desespero e ao medo, que o levam a tomar atitudes cada vez mais irracionais e perigosas, Somente o Mar Sabe não consegue acompanhar sua própria mudança de tom, fazendo com que o estado mental em deterioração do protagonista seja abordado de forma rasa e a partir de motivações muito mais exploradas. Assim, apesar do trabalho eficiente de Firth, Donald jamais torna-se uma figura despida de nuances.

Mas os problemas de caracterização não atingem apenas o protagonista ¿ chega a ser desesperador ver uma atriz do calibre de Rachel Weisz presa a uma personagem que é um exemplo perfeito da esposa que não tem absolutamente nada para fazer no filme além de inspirar e encorajar o marido. Marsh até tenta disfarçar a unidimensionalidade de Clare na cena em que ela critica a sede da imprensa pela tragédia, mas, além de continuar centrado apenas em Donald, o monólogo falha por abordar um grande problema de uma maneira, mais uma vez, rasa e óbvia.

Em termos técnicos, Somente o Mar Sabe é esteticamente belo, demonstrando uma certa atemporalidade na fotografia de Eric Gautier e na trilha sonora de Jóhann Jóhannsson que complementa a qualidade do design de produção comandado por Peter Francis e Jon Henson. Em alto-mar, a direção de Marsh também consegue capturar bem o isolamento do protagonista, ainda que isso seja prejudicado por não ter o embasamento de um roteiro eficaz.

Somente o Mar Sabe escolhe caminhos fáceis e prefere uma abordagem genérica do que a real exploração de seu protagonista. Com isso, o longa revela-se uma experiência tão frustrante quanto a missão falha de Donald.


“The Mercy” (RU, 2018), escrito por Scott Z. Burns, dirigido por James Marsh, com Rachel Weisz, Colin Firth e David Thewlis.


Trailer – Somente o Mar Sabe

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