Sobrenatural | Pérfido


[dropcap]E[/dropcap]m dois momentos de Sobrenatural o título original, Insidious (que na tradução literal ficaria Pérfido, que, sem dúvida nenhuma, seria muito mais bacana), reina sozinho na tela, com uma fonte “demoniacamente” rebuscada em um vermelho cobre que parece vir de algum canto do inferno. No começo e no fim, como se embalasse o filme de modo clássico, como o cinema de décadas atrás sempre fez. E talvez seja isso que Sobrenatural mais tente fazer: dar uma volta clássica pelo gênero.

Nela, o diretor James Wan e o roteirista Leigh Whannell (dupla que foi responsável pelo primeiro Jogos Mortais) parecem preocupados em fazer esse filme sobre espíritos, casas mal assombradas e famílias pegas no meio desse terror, como um milhão de outros exemplos, mas, mais ainda, como aquele monte que fez tantos fãs antes dos fantasmas de olhos puxados e sequências dominarem os cinemas (ainda que esses do outro lado do mundo tenham bebido nessa mesma fonte). O problema é não terem coragem de extrapolar isso (com Sam Raimi fez recentemente em “Arraste-me para o Inferno”) e muito menos apostar que só isso pudesse ser o suficiente para acertar em cheio.

A impressão que fica é que, durante a maioria do tempo Sobrenatural é um suspense sobre fantasmas, um terror até, (por mais que isso seja discutível) sobre uma família que vê o filho entrar em um coma misterioso e acabam desconfiando que sua nova casa esteja sendo mal assombrada, tudo junto (o que não deixa dúvidas para o espectador que uma coisa tem a ver com a outra, e talvez nem fosse essa a idéia). Contar mais que isso, talvez seja demais sobre o andamento do filme (por mais que o trailer e o pôster não tenham esse cuidado), mas, ainda assim, Sobrenatural sobrevive com esse ponto de partida e, quem conseguir embarcar em seu clima, vai acabar ganhando um interessante filme de terror (ai sim sem discussões).

Um violino quase fora de tom arranhando a trilha sonora, um sótão, muito barulho, sombras e reflexos, tudo esta lá (além de um terceiro ato que mergulha até o pescoço nesse terror que, até antes disso apenas esbarrava em algo… sobrenatural) só restaria então a Wan e Whannell juntar isso com a trama do parágrafo anterior para acertar na mosca. Porém, é essa mistura que mais prejudica o ritmo do filme, que acaba desandando um pouco, como se existisse uma certa obrigatoriedade de parar tudo, em alguns momentos, para explicar, discutir e prever o próximo passo. Um cuidado excessivo em não afogar demais seu espectador nessa ânsia de terror, dando-os tempo para descansar entre alguns sustos telegrafados demais, o que enfraquece demais o resultado final.

Mas por outro lado, são justamente esses sustos, na verdade os momentos anteriores e posteriores a eles que mais carregam Sobrenatural, já que, na maioria do tempo, esses instantes são extremamente bem tratados pelo diretor, que tem a total consciência que é ai que seu filme pode mais sobreviver. Ainda mais quando aposta em aparições físicas e não resultantes de computação gráfica.

Wan escolhe, justamente, o mesmo caminho que os filmes de terror japoneses escolheram nos anos 90: criar o terror diante do real, não pelo canto do olho, mas encarando esses fantasmas de frente, sem escondê-los da câmera (ainda mais quando aquele terceiro ato, que eu já citei, depende disso). Um pequeno garotinho dançando no meio de uma sala pode não ser nada, ou, simplesmente, um daqueles momentos arrepiantes que farão de Sobrenatural um pedida na medida, não só para os fãs do gênero, mas para todos aqueles que sentem falta de poderem ter medo de um fantasma e não de sua sombra. Ainda mais quando, ao seu fim, como um bom e velho filme de terror/assombração/demônio o espectador descobre que, para tudo dar certo no fim, o melhor mesmo é que tudo dê errado para seus personagens.


Insiduius (EUA, 2010), escrito por Leigh Whannell, dirigido por James Wan, com Patrick Wilson, Rose Byrne, Ty Simpkins, Barbara Hershey e Lin Shaye.


trailer do filme Sobrenatural

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