Siron – Tempo Sobre Tela | Cada pincelada


Existem poucos prazeres maiores do que estar dentro da cabeça de um grande artista. Como o nome já deixa claro, Siron – Tempo Sobre Tela te coloca em um espacinho dentro da mente desse pintor de Goiás que se tornou um dos nomes mais importantes das artes plásticas do Brasil.

Não que o filme de André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos consiga fazer o impossível de entender o artista, mas a proximidade com que se colocam do pintor resulta em um filme pessoal, poderoso e cheio de personalidade. Camada sobre camada desse artista, como se fossem acumulando essas impressões, mais o menos o que Siron Franco faz com seus quadros e obras.

Porém sem a linearidade de um documentário sem graça. A dupla consegue aproveitar bastante do material de pesquisa de gravações de VHS do próprio Siron em diversos momentos, ao mesmo tempo que deixam ele solto no presente para falar sobre sua carreira e pintar.

Em certo momento o próprio Siron aponta o quanto acredita que o “ser selvagem” tem a ver com fazer aquilo que o coração pede, mesmo que seja alguma idiotice. Uma vida onde a pincelada não precisa ser eterna, pode ser colocada lá para ter um significado maior do que simplesmente aparecer. Seus quadros se cobrem com eles mesmos, assim como o documentário tenta amontoar esse Siron através de seu passado e de suas grandes obras para entender o seu legado.

A ideia pode parecer existencial, mas na prática é simples. O “agora” daqueles vídeos caseiros existe tanto quanto os quadros já pintados, já que formaram o que o artista é hoje e serão o resultado de seu próximo quadro. A arte existe no instante, por mais que esse mesmo tenha ficado perdido no tempo. Como se a pincelada coberta por outra nunca sumisse, você talvez só não saiba mais que ela está lá.

O documentário tenta entender esse processo, deixa a câmera ligada durante a criação de um quadro e volta a velocidade, te mostra o quanto o resultado final estava longe do branco da tela vazia. Como se mais interessado naquilo que não está ali. Entender mais do que apenas o impulso ou a técnica.

Em certo momento o documentário acompanha todo esforço da construção de um enorme monumento que festejava os índios, uma série de pilastras de concreto em forma do mapa do Brasil. Siron fez daquilo sua maior obra, mas as décadas se passaram e o preconceito irracional de uma sociedade falida destruiu toda estrutura. Visitando o lugar, o artista vê apenas um pedaço de concreto do que era o centro da estrutura, mas sem a tristeza, apenas a constatação de que a arte não precisa perdurar para ser arte, mas apenas acontecer.

Siron – Tempo Sobre Tela discute exatamente isso, o quanto o que passou não vai deixar nunca de existir. O quanto a primeira pincelada pode não continuar por lá, sendo vista, mas ela está lá. Assim como todas experiências e pinceladas, cada um desses momentos sendo único para que a próxima vez que o pincel encostar na tela ela seja o começo de algo novo, mas ainda assim o resultado de tudo que já passou. Todas camadas de tinta por baixo de cada um de nós.


“Siron – Tempo Sobre Tela” (Bra, 2021); escrito e dirigido por André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos