Sibéria | Desafiador e delirante


A intenção de Abel Ferrara em Sibéria é óbvia: convidar o espectador para viver o pesadelo desse homem vivido por Willem Dafoe, em uma cabana no meio de algum lugar ermo e congelado. Talvez seja no próprio lugar que dá nome ao filme, mas ninguém pode ter muita certeza disso, nem de nada.

Dafoe começa o filme falando sobre algumas lembranças dele com o pai, uma pescaria selvagem cercada de índios bêbados e um lugar longe de tudo. O corte no tempo mostra o próprio personagem agora comandando uma espécie de ponto de parada no meio de lugar nenhum, cercado de neve, personagens estranhos e fragmentos de pesadelos que cada vez mais vão quebrando a sua realidade.

As línguas não falam o mesmo idioma, uma espécie de Babel onde isso não é necessário para a comunicação. O sexo com uma russa grávida fica tanto no campo da poesia, quanto no delírio, o resultado é um pesadelo, mesmo que o toque sensível aceite o prazer sensível dos corpos se entrelaçando.

É complicado encaixar isso no mesmo lugar onde outro homem perde seu tempo enfiando moedas em um caça-níqueis, sendo o único fazendo isso naquele lugar é provável que o dinheiro que os três noves lhe der seja o mesmo que ele colocou dentro da máquina. A falta de conexão é desesperadora, e tudo fica pior ainda com o corte sobressaltado que coloca o personagem de Dafoe enfrentando um urso. A complexidade do significado é angustiante, mas todo pesadelo o é.

A segurança de Dafoe em parceria com a beleza do trabalho de Ferrara fazem com a vontade de buscar esse significado seja uma experiência incrível. Sibéria é solto no tempo e navega em um mar de significados e sensações poderoso, que te leva nessa corrente até os cantos mais obscuros da psique desse personagem.

Na verdade, Clint (Dafoe) tem uma busca óbvia que começa lá nas suas palavras iniciais e sua voz impossível de não ser reconhecida: a busca pelo pai. Passa por um tipo de campo de concentração onde umas espécies de monges são assassinados, não há relato de nenhum massacre de monges na Sibéria, ainda que exista uma grande concentração organizada de religiosos budistas na região. Mas eles podem nem ser monges e a criança que foge da morte no final não ter nenhum significado nessa busca pelo pai.

Clint enfrenta alguns “demônios da caverna”, como se formados de operações malsucedidas. O personagem então assume o olhar do pai vestindo seus óculos, encara um oásis no deserto e um campo bucólico onde busca as artes da escuridão. Talvez encontre seus próprios pecados enquanto encara sua ex-esposa e o filho que abandonou. Mas celebra o amor por todas mulheres em uma espécie de relação herética que acaba com uma dança que o leva para a infância. Ou não.

Veste os óculos de sua versão criança e se encontra, descobre que não ter um propósito é o mesmo que criar um obstáculo, já que não é possível viver sem propósito. Clint luta para saber quem ele realmente é, não quem quer ser. É preciso então começar de novo, mas agora entendendo o poder de sua busca e o que ficou para trás.

Abel Ferrara te coloca no meio desse pesadelo, mas no fundo te ajuda a entender onde quer chegar, até que o peixe morto fala em hebraico com seu personagem, e aí você volta a desistir de tentar chegar em uma conclusão. Mas a experiência poderosa não desgarrará de você por um bom tempo depois do fim de Sibéria, e só isso já a torna imperdível para quem quer ser desafiado.


“Siberia” (Ita/Ale/Gre/Mex, 2020); escrito por Abel Ferrara e Christ Zois; dirigido por Abel Ferrara; com Willem Dafoe, Dounia Sichov, Simon McBurney, Cristina Chiriac, Daniel Giménez Cacho e Anna Ferrara


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