Sherlock Holmes Filme

Sherlock Holmes


Se já seria difícil dar uma nova vida a um personagem conhecido, a tarefa fica extremamente mais árdua quando o alvo é uma das figuras mais famosas da cultura popular do último século. Centenas de aparições em adaptações de teatro, literatura, cinema e TV não só fizeram de Sherlock Holmes umas das “personalidades” mais míticas do mundo, como também umas das mais intocáveis e o novo filme homônimo, dirigido por Guy Ritchie, não só mostra que ainda é possível explorar a criação de Sir Arthur Connan Doyle, como ainda apresentá-lo para uma nova geração.

É lógico que os puristas vão torcer o nariz para essa nova visão do morador da “Baker Street” e de seu fiel escudeiro Watson (agora vividos, perfeitamente, por Robert Downey Jr e Jude Law), mas ao mesmo tempo terão que dar o braço a torcer no quanto Ritchie é feliz em seu resultado. Se por um lado seu Holmes é uma figura autodestrutiva viciado em remédios e, por que não, em adrenalina, enquanto parece sempre ter acabado de levantar da cama, bem longe daquela figura engomadinha que se fazia presente no inconsciente popular, por outro, o detetive nunca se mostrou tão humano e ao mesmo tempo infalível.

O diretor, é bem verdade, não remonta nem cria um personagem, apenas parece olhá-lo por uma outra ótica, muito mais real. Sem dúvida nenhuma o que vemos na tela é aquele mesmo Sherlock Holmes arrogante, preciso, que pratica pugilismo, toca violino e fuma seu cachimbo, um pouco deturpado talvez, participando de lutas ilegais e praticamente não achando uma função musicalmente agradável para seu instrumento, mas ainda assim extrapolando o mesmo charme que os anos deram a sua personalidade.

Se grande parte disso ainda se dá ao enorme talento de Downey Jr., parecendo casar perfeito para esse Holmes do novo século, exalando ainda mais uma atitude blasé que conquistará a todos, é preciso dar ainda todo crédito possível ao ótimo Watson de Jude Law (que já passou da hora de parar de ser subestimado, já que sempre acerta em seus papeis), não só casando perfeitamente com seu parceiro, em uma química pouco vista por aí, mas segurando a enorme bucha de ser o primeiro Watson fora do estereótipo “médico gordinho e meio abobalhado” para se tornar outra face dessa mesma moeda.

E é exatamente isso que o filme de Ritchie faz: quebra todo aqueles dogmas que a TV e o cinema impuseram, ao mesmo tempo em que tenta enxergar seus próprios personagens e sua própria história. Nela, Holmes, em uma “crise de abstinência de casos”, enquanto ainda tenta convencer Watson, a desistir da idéia de se casar, tem que lidar com uma suposta volta dos mortos do vilão Lorde Blackwood, o qual a dupla acabou de capturar em sua ambição de “dominar” o império britânico. Simples assim, como um conto do próprio Doyle, em que você se diverte não pelo objetivo da trama, mas por toda narrativa que a acompanha, pelo modo perspicaz com que o herói anda por ela e faz você ficar a espera de seu final cheio de surpresas e deduções.

Talvez, da parte de Ritchie acabe aparecendo uma certa veia um pouco demasiada Sherlock Holmespara o aventuresco, criando até uma grande sequência bem no meio do filme, envolvendo um estaleiro que acaba se mostrando sem a mínima importância e ainda impõe um ritmo que depois não consegue mais ser alcançado, podendo confundir o espectador, que pode se chatear com uma maior lentidão do resto do filme, mesmo esse sendo seu verdadeiro ritmo. Como se o diretor apostasse suas fichas em um momento inoportuno, já que a grande graça do filme está em seus personagens interessantes e nas pequenas reviravoltas que a trama vive a dar.

Nisso Ritchie acerta em cheio ao tentar convidar o espectador a prestar atenção naqueles mesmos pequenos detalhes que criam seu famoso poder de dedução. O diretor recorre àquelas mesmas montagens (na verdade pequenos flashbacks e slow motions de detalhes) estilosas que o tornaram famoso em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumengantes e Snatch, tentando sempre mostrar que muitas vezes uma bela olhada por um outro ângulo pode contar uma outra história. Tanto a idéia de o personagem prever com precisão absurda seus próximos movimentos, quanto todo emaranhado de situações que Holmes parece criar antes de dar um próximo passo, mas que só são mostrados depois da ação já concluída, tornam esses pequenos momentos deliciosos. Assim como a ausência de ambos, mais para o fim da trama, acabam acarretando uma certa “saudade”.

Junto de uma direção de arte estonteante e um visual sensacional, Ritchie apresenta aquele velho Sherlock Holmes para uma nova geração, assim como J.J. Abrams fez com seu Jornada nas Estrelas e Christopher Nolam em seu Batman, três exemplos vivos que, no fim das contas, remodelar personagens imortalizados não precisa ser mais tão traumático. Que venha logo o Professor Moriarty


Sherlock Holmes (EUA, 2009) dirigido por Guy Ritchie, com Roberto Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams e Mark Strong