Senhor Bachmann e Seus Alunos | Crítica do Filme | CinemAqui

Senhor Bachmann e Seus Alunos | Mais que só um momento


Mesmo com todas suas três horas e trinta e sete minutos, Senhor Bachmann e Seus Alunos passa como um sopro. Principalmente porque é exatamente isso que ele é, um sopro, somente um pedacinho da vida dessas pessoas. Um momento. Definidor e poderoso, mas ainda apenas só um momento na vida desses alunos e professores.

A direção de Maria Speth quer exatamente isso, participar desses momentos como se não estivesse nem presente ali. Sua câmera nunca se impõe, está sempre sob um cuidado permanente para preparar o espectador para chegar naquele momento onde seus personagens serão eles mesmo.

O foco no caso é essa classe de imigrantes em uma escola especial alemã que, ao que tudo indica, tem como objetivo a adaptação desses jovens para o país. O “Senhor Bachmann” do título é um de seus professores e o filme, praticamente, fica com ele durante todo tempo. Mais ou menos durante o período de um ano. Mas acreditem, é muito mais do que isso.

É uma vida. O filme coloca o espectador para descobrir as vidas dessas pessoas, inclusive dos professores. O resultado é incrivelmente humano e puro, ao mesmo tempo que acompanha esses jovens se tornarem humanos mais complexos e que não dependem do mundo para se tornarem o que os outros querem, mas sim o que gostariam de ser. O senhor Bachman, assim como o filme, escuta elas.

O resultado mais direto desse esforço é um caminhão de palavras sábias que vêm das bocas mais inocentes. É lógico que o filme não “vira a cara” para aqueles jovens que ainda estão tropeçando nos preconceitos (ou “pré-conceitos”), mas as discussões e reflexões acabam sempre encontrando uma sabedoria que beira o lúdico, mas é profunda e verdadeira.

Um caminhão de lições de vida. De personagens ainda novos, tanto na vida, quanto naquele país e língua, mas já carregam uma bagagem. É nisso que o professor está interessado, em extrair deles essas verdades que eles já têm, só não sabem. Um processo que não aconteceria diante de uma experiência formuláica e com o tempo contado, é preciso ter paciência e observar. Enxergar as barreiras caindo enquanto a diretora não desliga a câmera.

A execução de Speth é tão boa que consegue encaixar no filme, sem parecer forçado ou exagerado uma verdadeira viagem no tempo para que esses jovens lembrem de um passado que muitas delas nem sabia que tinha existido naquele país. E aqui fica claro o quanto os alemães fazem questão de não esquecerem seus erros e usarem isso para que tais equívocos não se repitam. Uma lição que muito lugar ainda se recusa a aprender.

A lição principal de Senhor Bachman e Seus Alunos não é só essa, é também aquela de que não existe uma nação de seres humanos se eles não tiverem vozes. O professor e a diretora escutam. A câmera paciente se coloca na sala como um fantasma que só quer observar enquanto o senhor Bachmann deixa esses jovens falarem, opinarem. Serem.

Um trabalho da cineasta que não julga, apenas acompanha. Um filme que abraça esses jovens e tenta entender, tanto quem são, quanto quem poderão se tornar. Na mesma esteira, de modo ainda mais sutil, Speth não só batiza o filme com o nome do professor, como ainda descobre e entende quem é essa pessoa que descobre  ter nascido para ensinar, mesmo que isso tenha demorado tanto para ser descoberto.

Três horas e trinta e sete minutos de humanidade, mas uma vida inteira de verdades.


“Mr. Bachmann and His Class” (Ale, 2021); escrito por Maria Speth e Reinhold Vorschneider; dirigido por Maria Speth


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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