Sem Saída

É interessante perceber que, mesmo sem nunca ter conseguido alcançar a qualidade do mesmo Os Donos da Rua que colocou seu nome na boca do público, John Singleton parecia manter uma certa linha característica, quase como uma assinatura. Mesmo que com pouca personalidade. Seus filmes tratavam ora de protagonistas negros com personalidades fortes, ora de histórias que andavam livres por aquele gueto de gangues e violência (à la Hollywood, mas ainda característico). Por isso que é surpreendente ver seu nome no alto do equivocado Sem Saída.

Ainda que Singleton não seja lá essa referência de qualidade, Sem Saída, que mais parece um thriller que só se esforça para pegar carona na fama do galã teen Taylor Lautner (o Jacob do Crepúsculo), acaba então saindo mais ainda daquele modus operandi do diretor. Em outras palavras, Sem Saída é branquinho demais, comportado demais, burguesinho demais e sem nem um pingo de malandragem, resumindo: difícil entender o que fez Singleton entrar no projeto.

Escrito por Shaw Christensen, estreante e sem previsão de continuar muito mais tempo nessa carreira (a não ser por sorte), Sem Saída” conta a história desse adolescente médio americano (Lautner), que começa o filme sobre o capo de um carro em alta velocidade gritando “Festa” com seus amigos, um personagem esmagado por todos clichês e que ainda parece ser tratado pelos pais (Jason Isaacs e Maria Belo) para se tornar, a qualquer momento, um herói de filme de ação, assim mesmo, sem qualquer tipo de sutileza nem passar perto desse início de filme.

Se arrastando de maneira óbvia e sem personalidade, a trama de Sem Saída então finge surpreender a todos quando o protagonista acaba descobrindo seu retrato (na verdade uma foto de sua infância) em um site de crianças desaparecidas (para um trabalho de escola que não parece ter a mínima relação com o que o professor comentou na sequência que apresenta o fato). Mas tudo isso é apenas uma desculpa para que ele então se descubra sendo perseguido de um lado por um espião russo e do outro pela CIA (como convém a nova moda dos filmes de ação).

E mesmo que esse seja o ponto de partida do filme, Singleton, completamente fora de controle em termos narrativos e visuais, parece se arrastar até essa reviravolta e faz um esforço tremendo para que ela seja uma espécie de surpresa do filme, ainda que trailers, sinopses e qualquer trabalho de marketing do filme se escore nisso. Não que todo o resto tenha sido feito de modo errado e com um spoiler, é Singleton e o roteiro de Christensen, que parecem contar demais com o fim desse primeiro ato. Do mesmo jeito que deixam pouco tempo para que o espectador se divirta com essa descoberta e o suspense de que “se ele é uma criança desaparecida, quem são aqueles dois que se dizem seus pais”.

Em um estalar de dedos não existe mais qualquer mistério em Sem Saída e tudo está resolvido e preparado para ser um filme de ação qualquer.

A estranheza é maior ainda já que o casal Isaacs e Belo é a única coisa que funciona com naturalidade no filme, com os dois atores controlando perfeitamente seus poucos momentos na tela e fazendo com que todo resto do elenco de Sem Saída acabe sendo um arremedo de personalidades muito menores que seus papeis, já que Lautner é um desastre sem emoção, Alfred Molina não sabe o que fazer com o papel e o sueco Michael Nyqvist (das versões suecas das adaptações da série de livros Millenium) acaba só funcionando por encarnar um vilão clássico sem novidades.

E Sem Saída ainda teria a opção de funcionar como um filme de ação acéfalo, mas nem isso consegue, já que acaba se resumido a duas cenas de lutas (uma na casa do protagonista e outra em um trem), um tiroteio e um final de thriller de espionagem, no meio de uma multidão com embate psicológico entre os antagonistas e tudo mais que manda o figurino. O resto do tempo… bom é Lautner de olhos cerrados sendo perseguido por uma montagem simultânea que mostra onde ele está, onde a CiA sabe que ele está e onde o vilão sabe que a CIA sabe onde eles estão. Se empolgar com isso faz até mal para o cinema, que pode achar que isso é suficiente para “ser um filme”.

Mas Sem Saída não tem oitenta minutos (que na verdade até esse tempo já seria um exagero) e Singleton tem que se contentar em preencher o resto do tempo com essa espécie de romance canhestro entre Lautner e a antiga namoradinha de ginásio vivida por Lily Collins (que surgiu em Um Sonho Possível em uma participação interessante, mas já vem preferindo estragar sua carreira como em Padre e aqui). Para o bem de todos e felicidade geral das fãs ardorosas, Lautner então pode mostra seu lado “meigo”, já que dá conta de agentes russos super-treinados, mata na hora a charada do porque da CIA estar arás dele, consegue fugir de todos (além de antes disso ser um galã cheio de marra em sua moto chegando à escola), mas não consegue se declarar para seu grande amor sem antes arrumar um cobertor para ela. O difícil é entender onde tudo isso se encaixa na história.

Sem Saída então acaba servindo não como um exemplo a ser seguido, tampouco como prova de que John Singleton deva voltar a trabalhar com personagens mais, digamos assim, “donos da rua”, mas sim como prova de que Lautner tem sim futuro depois do fim de sua estadia em Forks enquanto vê seu grande amor virar uma vampira nas mãos de outro. Lautner, de olhos cerrados e enfrentando capangas treinados (e devidamente nu da cintura para cima para chamar o público feminino aos cinemas) ainda deve “funcionar” como chamariz para um punhado de filmes de ação descartáveis.


Abduction (EUA, 2011), escrito por Shawn Christensen dirigido por John Singleton, com Taylor Lautner, Lily Colins, Alfred Molina, Michael Nyqvist, Jason Isaacs e Maria Belo