Sem Limites

por Vinicius Carlos Vieira em 30 de Março de 2011

Muito provavelmente não seja tão difícil sair do cinema tendo gostado de Sem Limites, mas é por muito pouco que essas mesmas pessoas não sairão adorando-o. Não que isso seja um problema, porém é tão pouco que dá pena de ver o desperdício.

Dirigido pelo mesmo Neil Burger que esteve à frente do fraco O Ilusionista (aquele com o Edward Norton), Sem Limites conta a história desse Eddie Morra (vivido por Bradley Cooper, de Se Beber não Case, ganhando cada vez mais fama), um pretenso escritor, que, ainda por cima, acaba levando um fora da namorada, justamente, por não conseguir ver futuro nessa relação. A situação só melhora quando ele acaba esbarrando com o ex-cunhado (de um casamento fracassado, como tudo em sua vida) que acaba lhe dando uma amostra grátis de uma suposta droga que maximiza a potência de seu cérebro (pulando dos famosos 20% para os 100%).

Na verdade, Burger apresenta seu Eddie Morra sob o parapeito de seu apartamento chique, prestes a pular em direção à calçada enquanto alguém tenta invadi-lo, e aproveita uma narração do protagonista para voltar até onde tudo isso começou, um recurso narrativo que, por mais que seja usado à exaustão, nunca perde a funcionalidade, já que desponta. Desde o começo, um suspense e uma curiosidade no espectador, que, no resto do tempo, acaba se divertindo muito mais ainda tentando juntar as peças para a chegada naquele momento.

E não só isso, é essa distância entre os dois personagens, do cara de terno, cabelo cortado em um apartamento enorme, para o perdedor, descabelado, morando em um cubículo devendo o aluguel, que faz com que ninguém se irrite com o pretensioso Eddie Morra que, após tomar a droga descobre que pode praticamente “dominar o mundo”. É fácil não perder de vista aquele cara todo estropiado mesmo por baixo de toda banca de executivo moderno (ainda mais, já que o efeito da droga não dura para sempre).

É lógico que, para alguém tão inteligente, o roteiro de Leslie Dixon (que também escreveu o recente Antes só do que Mal Casado), a partir do livro de Allan Glyn, escorrega ao não se permitir criar um personagem infalível (o que dificultaria a presença de alguns conflitos, já que, na maioria das vezes, em qualquer filme ou livro, eles só acontecem graças a deslizes dos personagens). Assim, se é difícil entender por que, com toda inteligência do mundo, ele traça um plano que lhe obriga a “perder tempo” com a bolsa de valores (por mais que, no fim das contas tudo tente ser explicado), é difícil não se irritar com todo deslizes que movimentam o personagem por aquela trama. Ou alguém acha mesmo que a polícia não iria revistá-lo, ou que o traficante russo não fosse “resolver seu problema” de modo mais rápido (ou até que ele não fosse pensar em um modo de ter um estoque maior das pílulas bem antes de ver tudo podendo dar errado por falta delas).

Enquanto esse roteiro acaba não se importando em tapar alguns buracos, resta então ao diretor tentar impor o visual mais cheio de estilo possível, que movimenta sua câmera ao redor daquele mundo e se diverte com meia dúzia de inserções visuais (números, lembranças, etc.) que ajudam a entender como aquela “percepção melhorada” funciona (coisa que o Guy Ritchie já cansou de fazer e que extrapolou em Sherlock Holmes, mas ainda assim é uma boa pedida). O problema é quando, a partir de um momento, Burger parece ficar sem imaginação e acaba repetindo exaustivamente certos truques, o que cansa um pouco e impede que Sem Limites tenha mais coisas para divertir o espectador (que deve se pegar pensando “de novo isso!” um par de vezes)

Por outro lado, ainda que fique um pouco na dúvida de onde quer chegar e como quer fazer isso (se com ação, suspense, ou uma certa conspiração), Sem Limites consegue ver sua história funcionar, não só ligando os dois momentos do começo do filme (no presente e no passado), como conseguindo fazê-lo sem dar muito trabalho para seu espectador, que não perde o interesse pela história em nenhum momento, já que, a todo tempo quer, realmente saber onde tudo aquilo pode dar.

No final das contas, Sem Limites talvez carregue seu maior pecado por, ao mesmo tempo não conseguir arrumar um vilão mais presente (o que não deixa o filme chegar a um patamar mais alto, já que nenhum perigo parece ser suficiente) e desperdiça a presença de Robert De Niro (que talvez só tenha sido contratado como chamariz no cartaz), que poderia ser substituído por qualquer um ou, simplesmente, sido usado como vilão.

E uma última coisa, não estranhe se você sair do cinema achando que Sem Limites é uma pequena apologia ao uso de “medicamentos que liberam sua consciência” (vulgo drogas mesmo) e nem constatando que, o melhor jeito de “dominar o mundo” seja, realmente, enganar e manipular um ou outro para alcançar seus objetivos. Mas isso é uma discussão que só aconteceria mesmo, caso ele tivesse conseguido chegar um pouco mais longe, e não só nas bilheterias.


Limitless (EUA, 2011), escrito por Leslie Dixon, a partir do livro de Alan Glynn , dirigido por Neil Burger, com Bradley Cooper, Abbie Cornish, Andrew Howard e Robert De Niro.


4 Comments

  1. O engraçado é que passamos o filme todo (vou me arriscar a falar por todos, rsrs) torcendo para que o personagem se dê bem no final. Nada errado nisso, se o personagem em questão não fosse arrogante, inescrupuloso e absolutamente egoísta.

  2. Junte-se a capacidade que alguns dispõe de não esquecer de nada – até de conversas com colegas das primeiras séries do primário, somados a pessoas que tem imensa facilidade para aprenderem línguas – no Brasil existe um senhor que diz falar 65 línguas e que consegue aprender uma nova em seis meses; e a expansão de consciência que experimenta o usuário de drogas; está pronto o caldo que dá substrato a essa ficção. Poderia ser melhor. Sim, mas a idéia é muito legal. O filme é leve, bonito e interessante. Recomendo.

  3. gostei do ultimo paragrafo , o filme faz apologia ao uso de ” medicamentos que lhe deixa foda ” ,.

    é aquele tipo de filme que vc assiste umas 3 vezes e não enjoa !

  4. Gostei de sua crítica, bastante equilibrada e sem afetação. Concordo, sobretudo, com a questão do vilão. Quando o personagem do Robert De Niro surge como um antagonista à altura do que já conhecemos do “mocinho”, já é tarde demais, não há mais perigo. Mas, nem por isso deixa de ser um bom filme. Daqueles que a gente compra o DVD pra assistir de novo, comendo um salgadinho com refrigerante e pausando pra atender o telefone, ocasionalmente.

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