A Segunda Chance

Segunda Chance

A diretora Susanne Bier já nos mostrou um debate ético arrebatador em Depois do Casamento. Agora em Segunda Chance o dilema moral, como ideia, é muito maior, e dificilmenteA Segunda Chance há um momento no filme que é possível relaxar de tanta tensão. Os closes nos atores são constantes e a câmera na mão deixa tudo mais imediatista e se há momentos de calmaria, é porque Bier escolhe nos brindar de tempos em tempos com a visão da água tocada pelo vento, ou o céu pelos pássaros.

A história gira em torno de dois casais e dois bebês, que são eficientemente introduzidos logo no início. Andreas (Nikolaj Coster-Waldau) é um policial que, ao presenciar o descontrole de sua mulher, Anna (Maria Bonnevie), ao perder o filho em uma morte precoce ocorrida durante a noite, se desespera ao entender que ela é capaz de se matar pela dor do luto. Ele realiza, então, na calada da noite, a troca por outro bebê que ele havia visto naquele mesmo dia, filho de um casal problemático, Tristan (Nikolaj Lie Kaas), o marido drogado e violento e sua esposa, Sanne (May Andersen), vítima direta dessas agressões.

O filme mostra tudo como algo quase que natural a se fazer, pois o bebê dificilmente sobreviveria ou teria algum futuro no ambiente insalubre do casal, mas mais importante que isso, mostra Andreas quase como uma vítima das circunstâncias, pois após seu ato condenável ele vive à beira de uma cada vez mais perturbada esposa e uma incessante crise de consciência quando, tentando se livrar do bebê morto, Tristan finge que ele foi sequestrado e acaba colocando Andreas novamente em contato com o casal.

Em uma fotografia com cores frias e sóbrias da estreante Michael Snyman, que se aproveita boa parte do tempo da penumbra para contar sua história, as noites são uma constante. O escuro completo é usado para representar o obliteração completa de um ser em uma cena arrebatadora envolvendo um berço e um caminhão. E de dia, o cinza começa a tomar conta da vida dessas pessoas, sugando o pequeno rastro de felicidade de uma família, representada inicialmente pelas luzes natalinas que cercam sua casa. Curiosamente, uma rima inversa é adotada para o parceiro de Andreas, Simon, que de alcoólatra inveterado, resolve rever sua vida à sombra da dor do casal amigo, em uma ótima participação de Ulrich Thomsen.

A Segunda Chance Crítica

Ao mesmo tempo, a pequena, mas significativa, participação de May Andersen como a mãe que se nega a reconhecer o bebê morto como seu filho realiza uma contraparte eficiente da história, e ainda que em nós gere uma desconfiança sobrenatural, pois é impossível distinguir ambos os bebês – a produção do filme usou nada mais nada menos que 10 bebês para representar os dois, sem distinção.

E é curioso que a fisionomia dos bebês não seja levada em conta, pois o próprio filme usa a mesma dinâmica para entendermos as nuâncias do que está ocorrendo. É por isso que a forma com que Sanne segura seu filho ganha um novo significado à luz de uma revelação vital próximo do final, ou como os flashes iniciais vão aos poucos se reencontrando no decorrer da narrativa. É através dessa discrição e sutileza que o filme consegue enriquecer seu panorama, não se limitando apenas a mais uma história policial ou um drama genérico.

Afinal, da mesma forma com que Depois do Casamento não é um drama sobre paternidade, Segunda Chance não é um suspense baseado unicamente em uma troca de bebês. São os seus dilemas morais, que ganham contornos universais, que tornam ambos os trabalhos irretocáveis como exercícios filosóficos.


“En Chance Til” (Din, 2014), escrito por Anders Thomas Jensen, dirigido por Susanne Bier, com Niklaj Coster-Waldau, Ulrich Thomsen, Nikolaj Lie Kaas, Maria Benneveue e May Anderson


Trailer – Segunda Chance

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