Segredos Oficiais | Mesmo sem “timming” é bom demais

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Segredos Oficiais é uma história real que envolve política e a Guerra do Iraque deste século, mas está fora do timing. É um filme britânico deslocado dos assuntos do momento, como o #brexit, por exemplo.

Além disso, seu assunto jurídico é chato, cheio de detalhes legais que precisamos aprender para entender a trama. Sua heroína é uma subalterna de um órgão terceirizado do governo, sem qualquer interesse. Seu desfecho é totalmente anticlimático, sabotando nosso envolvimento pelas últimas duas horas. E apesar de tudo isso, Segredos Oficiais é absurdamente bom. Tenso, comovente, claro e empolgante. Como isso é possível?

Em primeiro lugar, o roteiro de Sara e Gregory Bernstein, adaptado do livro “The Spy Who Tried to Stop a War”, de Marcia e Thomas Mitchell, coloca uma moça chamada Katharine Gun (Keira Knightley) na frente de uma corte de alta instância, acusando-a de traição de seu país. Sobre a pergunta “se ela se declara culpada e inocente”, não ouvimos sua resposta, porque o filme retorna dois anos no passado, mas acostumados que estamos com esse artifício, mal nos importamos com o que ela dirá. E não nos importar com sua resposta, o filme irá nos mostrar, é um ledo engano.

Gun é funcionária de uma instituição que realiza transcrições de áudios em vários idiomas, áudios resultantes de escutas realizadas por órgãos do governo, ou na velha e precisa palavra usada antigamente, espionagem, mas institucionalizada, o que soa melhor e tem ar condicionado. Competente em seu ofício de traduzir mandarim, ela é toda politizada e chega a gritar com a TV quando vê políticos mentindo descaradamente, mesmo que esse político seja o primeiro-ministro de seu país, o que nos demonstra que seus princípios estão acima do seu governo. Por isso quando sua equipe recebe um e-mail encaminhado por um agente da CIA montando um esquema ilegal para conseguir votos na ONU que valide o início da guerra, nós já sabemos qual vai ser sua reação: vazar este memorando para que seja publicado o quanto antes.

O filme faz de tudo para que a retidão moral de Katharine Gun fique intacta durante a chuva de acontecimentos desencadeadas por esse vazamento. Enquanto isso nós aprendemos a dinâmica entre grupos pacifistas militantes e os grandes jornais britânicos como The Observer. O roteiro dos Bernstein têm até tempo de nos informar que, além do editor do jornal já ter sua posição pró-guerra definida, possui comunicação privilegiada com o primeiro-ministro e evita publicar artigos com mais de 400 palavras. Apenas esta rápida cena é suficiente para entendermos que a opinião pública está completamente nas mãos estatais e a população sequer tem acesso ao que jornalistas investigativos mais críticos pensam sobre isso.

É nessa atmosfera em que os poderes parecem todos cooptados e o Reino Unido está prestes a se unir aos americanos em uma coalizão autoritária e sem qualquer justificativa racional na invasão ao Oriente Médio que Katharine Gun se meteu, e a personagem criada por Keira Knightley é a cidadã comum se cidadãos comuns do século 21 fossem politizados e com voz ativa.

E mais uma vez o roteiro dos Bernstein, com a ajuda da direção de Gavin Hood, nos manipula de forma a imaginar Katharine com essa voz ativa a todo momento. Quando a ouvimos falar, é como se estivesse discursando, pois uma música solene surge lá do fundo. A trilha sonora de Paul Hepker e Mark Kilian soa clichê pela impulsividade, mas é mais eficiente do que gostaríamos que o clichê fosse, e torna cada pequena reviravolta dos acontecimentos em um grande momento para refletir.

Todo esse esforço em soar relevante é tão intenso que mal importa que o vazamento iniciado por Katharine no fundo não altere o destino da História (o que não é nenhum spoiler, desde que você tenha acompanhado as notícias de guerra da década passada), pois é justamente pela impotência de seu ato que conseguimos enxergar o perigo que ela corre ao desafiar seu próprio governo. Mas, só para ter certeza, há uma cena em que um detetive da Scotland Yard a leva para uma salinha junto com uma advogada de defesa improvisada. Essa advogada, que cuida de casos de pequenos delitos, assessorou Katharine por esses tensos minutos para que nós espectadores tenhamos a exata noção de Davi versus Golias que se configurou.

Como que para coroar esse tenso roteiro conduzido com precisão por Gavin Hood, surge o personagem do advogado “ultrarracional” interpretado por Ralph Fiennes, um sujeito que se senta na outra ponta de uma longa mesa para conversar com sua cliente, depois de ter sido apresentado a ela com uns 4 metros de distância entre eles. Fiennes vive o advogado introvertido Ben Emmerson como alguém que possuía amigos dentro do governo pelo seu passado, mas que, assim como Katharine, não vendeu sua alma e manteve seus princípios intactos.

O filme não precisa ter uma cena que explique a conexão entre Ben e Katharine, pois ela é mais intelectual que afetiva, tem a ver quando dois seres humanos corretos observam um ao outro, se entendem e se respeitam. E Fiennes consegue nos convencer a todo momento que apesar de possuir habilidades na arte da advocacia sua causa não está ganha, e pode muito bem não estar, e assim garante tensão por muito tempo depois que mais nenhuma novidade surge na história.

Segredos Oficiais é um filme que envolve espionagem e política em um drama moral e consegue extrair humanidade de tudo isso. Seu trunfo é uma adaptação sólida conduzida sem firulas por Gavin Hood, que se beneficia de um elenco acima da média para filmes chatos como esse. O resultado, que não é nada chato, acaba sendo uma experiência tensa, envolvente, que mastiga os detalhes para espectadores menos atentos, mas que continua mantendo um tom inteligente ao evitar perder algumas sutilezas de sua história.


“Official Secrets” (UK e EUA, 2019), escrito por Gregory Bernstein, Sara Bernstein e Gavin Hood, dirigido por Gavin Hood, com Matthew Goode, Keira Knightley e Ralph Fiennes.



Trailer do Filme – Segredos Oficiais

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