Seberg Contra Todos | Todos Contra Seberg


Mal batizado no Brasil de Seberg Contra Todos, o drama dirigido por Benedict Andrews, poderia muito bem se chamar “Como o FBI Matou Jean Seberg”. Com certeza um título que levaria mais gente aos cinemas e que ainda, com certeza, faria mais jus ao filme.

Para quem não ligou o nome à pessoa, Seberg foi uma famosa atriz americana que surgiu no fracasso de Otto Preminger Santa Joana, mas acabou, após isso, se tornando um dos ícones do cinema mundial ao estrelar o seminal “Acossado” de Jean-Luc Goddard. Mas Seberg Contra Todos não diz respeito a nenhum desses momentos, muito pelo contrário até.

Vivida por Kristen Stewart, que cada vez mais consegue ocupar bem a tela com uma beleza meio francesa e blasé, o espectador é apresentado a essa atriz com vontade de ser relevante, e não apenas um rostinho bonito. O que isso tem a ver com deixar a França para trás e voltar para Hollywood é um mistério que não está no filme, mas o importante é que, logo na viagem de avião, acaba se encantando com o ativista ligado ao movimento dos Panteras Negras Hakim Jamal (Anthony Mackie), o que a transforma em alvo para o FBI.

Estamos falando de 1968 e a moda da época também era as autoridades locais apostando nas “fake news”, nesse caso para desestabilizar a carreira de Seberg e acabar com sua credibilidade. A porta de entrada disso é o caso que ela tem com o ativista negro Hakim Jamal. Do outro lado, o ótimo (e ainda desperdiçado) Jack O´Connell vive o agente Jack Solomon, responsável pela vigilância da atriz e que, aos poucos, vai se deixando levar por uma encruzilhada moral.

Seberg Contra Todos começa com essa dinâmica onde os três personagens (mesmo separados), mas aos poucos tudo se resume a acompanhar a atriz caindo mais e mais nesse buraco meio sem fundo. O roteiro escrito por Joe Sharpnel e Anna Waterhouse, que veem de uma série de roteiros sem relevância e medianos, acabam fazendo o mesmo com esse novo filme. Seberg Contra Todos nunca decola, esquece os detalhes que espalhou e não faz a mínima ideia de como fazer o filme se tornar interessante depois do começo movimentado.

Após chegar no aeroporto, apontar o punho para o alto e assinar alguns cheques, Seberg nunca parece ser alguém muito interessada em fazer “aquele bem” que o FBI está tão preocupado em impedir. O resultado é um filme triste e apagado como a fotografia meio sépia que domina as cores de um amarelo com cara de passado.

O que salva o filme é a presença de Kristen Stewart, que se esforça o bastante para encontrar o peso de uma personagem que não parece ter essa inspiração. Seus momentos de tensão e tristeza são certeiros, mas no resto do tempo, o que sobra é um texto mediano e uma ausência de material para trabalhar. Seus diálogos com a personagem de Zazie Beetz, por exemplo, são burocráticos e sem graça, ainda que o conflito entre as duas pudesse gerar emoção suficiente para valer a pena o pouco de tempo que a segunda tem na tela.

Talvez Stewart sofra ainda da falta de um diretor um pouco mais interessante, alguns de seus últimos trabalhos mais elogiados, como Personal Shopper (de Olivier Assays), por exemplo, vem com cineastas que deixam as atuações de suas estrelas mais tempo na tela, permitindo que Stewart fique mais tempo em tela sem cortes, o que parece ser oportuno para ela, que consegue atingir melhor a emoção de sua personagem. O que não acontece aqui.

Andrews corta demais e se aproxima mais ainda das ações de seus personagens. Até em algumas lindas composições, o corte ou o movimento de câmera acabam atravancando a experiência. Muito provavelmente essa necessidade venha da própria pressão de dele de se distanciar de seu currículo no teatro. Com certeza era melhor que ele trouxesse para o cinema sua capacidade estética dos palcos, mas, infelizmente, não é isso que acontece, o que faz com que Seberg Contra Todos acaba sendo “moderno” demais, cortado demais e mexido demais.

Mas a possibilidade de acompanhar como o FBI ajudou a destruir emocionalmente a atriz e entender bem como ela surgiu morta dentro de seu carro aos 40 anos, acaba sendo uma curiosidade histórica que ajuda o filme a não ser um fracasso total. Um filme que não empolga, mas faz pensar no quanto um sistema que beirava o fascismo conseguiu acabar com a carreira e matou um dos ícones do cinema por pura maluquice ideológica e racismo.

No final das contas, Seberg não era contra ninguém, mas muita gente era contra ela.


“Seberg” (UK/EUA, 2019), escrito por Joe Shrapnel e Anna Waterhouse, dirigido por Benedict Andrews, com Kristen Stewart, Jack O´Connell, Margaret Qualley, Vince Vaughn, Stephen Root, Anthony Mackie e Zazie Beetz


Trailer do Filme – Seberg Contra Todos

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