Salve Geral Filme

Salve Geral

Antes de qualquer coisa, é melhor tentar separar bem o filme Salve Geral de sua escolha para representar o país no Oscar e tentar frear a expectativa que essa indicação sempre cria ao redor do filme e que, na grande maioria das vezes, acaba se tornando uma arma contra ele mesmo. Feito isso, pode-se assim tentar enxergar o novo filme de Sérgio Resende como ele deve ser. Mesmo que isso não crie um panorama muito melhor.

Talvez pela proximidade do ocorrido, ainda fresco na mente da população, ou pela qualidade cinematográfica que o cinema nacional vem galgando ano após ano, Salve Geral decepciona e muito, ainda mais diante de toda promoção às voltas de seu lançamento (coisa que provavelmente aumentou ainda mais com a indicação, e que seria impossível de se separar). A grande verdade é que Salve Geral acaba se tornando um filme fraco, insensível e desempolgante. Principalmente por não parecer saber usar o material que tem em mãos.

E os problemas começam por aí: seu material em si, que decorre sobre aqueles ataques do PCC anos atrás pelo estado de São Paulo e que aqui serve de pano de fundo para mostrar a batalha de uma mãe (Andrea Beltrão) para que seu filho (Lee Thalor) consiga sair ileso da cadeia após se envolver em uma morte durante um desentendimento numa espécie de “racha”. Para isso, a mãe acaba se envolvendo com a facção criminosa e se perdendo a cada passo mais profundo que dá dentro da organização que conseguiu parar todo o Estado.

Em suas quase duas horas de filme, Rezende não parece se decidir sobre o que é pano de fundo do quê e praticamente mata seu filme diante disso. Vomita todo ponto de partida da história, sem conseguir desenvolver nada, nem personagens, nem um clima e nem a história em si, corre desesperadoramente para o tal ataque, o salve geral do título, e quando chega decepciona, pois o espectador passa a desconfiar que o filme era sobre a mãe e o filho.

salve-geral-still

Na verdade é óbvio que o filme é sobre a mãe, mas, diante do pouco que a relação deles é desenvolvida, o público pode achar o contrário. Em certo momento, é como se a mãe simplesmente esquecesse do filho e passasse a curtir essa nova vida. É claro que nenhum filme decente mostraria todas as visitas da mãe ao filho na cadeia, e isso faria dele algo chato e repetitivo, mas em Salve Geral o contrário se mostra uma grande verdade. A impressão que se tem é que, não só o filme acha seu pano de fundo mais interessante, como a protagonista compartilha da mesma opinião.

Sérgio Rezende parece tentar fugir do melodrama da situação, do choro da mãe e do sofrimento do filho dentro da cadeia, mas acaba criando um filme frio e desinteressante. Um filme sem heróis, sem ninguém para o espectador torcer no escuro do cinema. Diante de seus atos, a mãe se torna uma personagem que beira a inocência, emburrecido e apática; seu filho, desde o começo, é mostrado como um verdadeiro jovem ingrato e perdido; os presos do PCC e toda sua estrutura fora da cadeia, são, no melhor da expressão, criminosos vis e por fim, as figuras da lei, os policiais, se mostrando inescrupulosos e corruptos. Um grande filme onde todo mundo mereceria ir em cana.

A trama toma um rumo ainda mais perigoso e hipócrita ao tentar criar uma certa simpatia pelos criminosos ao mesmo tempo em que se mostra desesperada para criminalizar a policia, que pratica tiro ao alvo em dois caras por ele sairem correndo ao avistar a viatura e que só não executam o protagonista por terem testemunhas. Pinta um PCC unido, inteligente e que mata um de seus “diretores” por ele promover algumas mortes, punindo o assassinato em uma organização de condenados pelo mesmo crime, redimindo os personagens de seus passados criminosos. Uma tentativa de criar anti-heróis que vai por água à baixo. Sem parecer perceber tudo isso (pelo menos prefiro pensar assim) o filme de Rezende acaba tomando o lado errado da equação, fingindo não julgar quem deveria ser julgado, mas, claramente, inocentando uns e incriminando outros. Cria um presidiário que pertence a uma “classe” oprimida (Injustiçada!?) que luta por seus direitos, por “paz, justiça e liberdade”, em uma espécie de revolução às avessas, onde a vítima foi (e é) a sociedade.

Um elenco fraquíssimo e extremamente burocrático, que se resume a repetir as frases do roteiro como se não sentissem nada, contribui mais ainda para que somente as ações da trama criem suas personalidades, errando em apostas antipáticas que não deixam o espectador comprar a idéia à sua volta. Enquanto o próprio protagonista parece engessado e arrastado em um personagem pouco interessante, nem ao menos o único nome realmente conhecido do elenco, Beltrão, consegue salvar, tremendamente desconfortável e sem credibilidade dentro da personagem. Sem falar na horrível atuação de Pedro Perillo como Professor, digna das melhores geladeiras: pesadas, sem personalidade, frias e colocadas em algum canto, mas ao mesmo tempo importantes para o resto da cozinha (nesse caso, trama).

Sobre tudo isso, Salve Geral ainda não consegue apresentar um visual minimamente atraente, até meio chato, formado de composições quadradas, centralizadas no meio da tela e sem muita informação, se arrastando em planos que se acham modernos, que se recusam a permanecer na tela mais que o necessário, mas acabam apenas por picotar a trama.

Por fim, Salve Geral não mostra absolutamente nada de novo, não tenta ser um retrato documental, nem um filme de ficção, morrendo então em um limbo de telefilme. Nos EUA (assim como em grande parte do mundo) iria direto para DVD e aproveitaria o “baseado em fatos reais” da produção. Aqui vira representante do país no Oscar (coisa que provavelmente não vai ocorrer), não refletindo a verdadeira qualidade do cinema nacional.


Idem (Bra, 2009) direção: Sérgio Resende com: Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Lee Thalor, Eucir de Souza, Kiko Mascarenhas, Bruno Perillo

Trailer – Salve Geral

Quer receber as melhores notícias do cinema?

Inscreva-se na newsletter do CinemAqui e receba um resumo semanal do que está acontecendo no mundo dos filmes.