Talvez só haja uma explicação para que as duas grandes aventuras de espionagem do ano tomassem caminhos tão distintos, Encontro Explosivo fracassou enquanto Salt vai enchendo o bolso de cifrões E mesmo que ainda possa ser em razão dos altos e baixos de seus protagonistas (Cruise e Diaz em baixa e Jolie em alta), o que, na verdade, parece a maior razão talvez seja a própria platéia, pouco interessada em “experimentar” algo novo.

Não que Encontro Explosivo seja esse algo novo, mas só a vontade que ele tem de rir de si mesmo já traz essa novidade, bem diferente do Salt dirigido por Phillip Noyce, que sempre esteve envolvido com esse gênero de espionagem aventuresca com seus protagonistas fugindo do mundo em sequencias de ação grandiosas (O Santo, Jogos Patrióticos, Perigo Real e Imediato) e que mostra que ele sabe andar muito bem pelo gênero. E é isso mesmo que Salt faz, apenas anda dentro do que se propõe, já que às vezes, é apenas isso que o público procura.

Em sua trama, Jolie é a personagem título, uma agente da CIA que é acusada de ser uma espiã russa infiltrada nos Estados Unidos. Para provar sua inocência então precisa correr contra o tempo enquanto ainda tenta salvar seu marido das mãos dos russos. Mas se prepare para exatamente só isso mesmo, com um começo econômico, onde cada personagem dá as caras e se posiciona, para, o resto do tempo, o roteiro de Kurt Wimmer colocar a personagem para correr.

Ainda que essa estrutura funcione bem, graças ao próprio roteiro que faz questão de costurar bem a trama de um modo limpo, ao mesmo tempo sempre cheio de acontecimentos, empurrando bem a história para frente, ela acaba não trazendo absolutamente nada novo. Salt é apenas mais um dos milhões de filmes de espionagem que correm contra algum relógio, com uma montagem paralela e duas ou três grandes sequencias de ação. E por mais que pareça estranho, sua única novidade é trazer de volta à pauta os grandes vilões dos filmes de espionagem de Hollywood: os soviéticos e sua predisposição por detonar algumas bombas atômicas.

Mesmo que essas poucas sequencias de ação (meio até que repetitivas, já que duas delas acontecem em alto estradas) sejam muito bem captadas pelas lentes de Noyce, ele mesmo parece esquecer-se de equilibrar a balança da desconfiança em cima da personagem, já que, durante quase todo tempo ele “finge” criar essa dúvida para o espectador (“ela é ou não é espiã?”), mas em nenhum desses momentos parecendo realmente a fim de deixar que isso aconteça, principalmente por não criar personagens simpáticos do lado dos “mocinhos”.

Mas o grande problema disso não é enganar sua platéia, mas sim deixá-la a espera de uma grande reviravolta que mostraria todas razões daquilo estar acontecendo, e quando isso não acontece (e, ainda por cima, vai diretamente para aquele final que todos desconfiavam desde o primeiro instante), faz com que seu filme caia em uma resolução arrastado e óbvia, que parece fazer mais questão de preparar o filme para uma sequencia do que se importar de terminar aquela história. Pior que isso, ainda se sente obrigado a explicar tudo que aconteceu, mastigar sua trama e desatar um nó para quem, por acaso, não tenha entendido.

E dentro de tudo isso, quem não deixa tudo afundar em uma experiência comum com slow motion em excesso, é a própria Angelina Jolie e seu charme cativante, que carrega o filme mesmo abrindo pouquíssimo a boca (como se precisasse). Isso muito graças à credibilidade de sua presença e seu status de estrela, talvez a maior da atualidade (uma escolha que acaba se mostrando mais que acertada, já que por pouco o papel não caiu, ironicamente, no colo de Tom Cruise). Sem ela, talvez Salt se tornasse um thriller de espionagem igual a um monte de outros. Com ela, ganha os cinemas como um dos grandes filmes de aventura do ano, mesmo que tal título não diga absolutamente nada em um ano com produções do gênero, até aqui, pouco empolgantes.


idem (EUA, 2010) escrito por Kurt Wimmer, dirigido por Phillip Noyce, com Angelina Jolie, Liev Schreiber e Chiwetel Ejiofor


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