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Rogério Duarte, o Tropikaoslista | O caos é algo bonito se olhado da maneira certa


A poesia é a pedra no meio do caminho entre a música e a palavra. (Rogério Duarte)

Eu gosto de colagens. Geralmente os apanhados de museu de arte moderna (chamados de exposição) são um convite inspirador para adentrar no âmago de um artista através de sua obra. Em Rogério Duarte, o Tropikaoslista há esse sentimento no sentido mais espaço-temporal do conceito, bem ao gosto do artista em questão e sua visão cósmica da realidade. Acompanhamos Rogério falando sobre si e sua história, que se mistura com outras obras de outros artistas (em específico Glauber Rocha, seu melhor amigo) e também se mistura com a própria história do Brasil da ditadura militar.

Isso porque Rogério foi preso e torturado naquela época, sendo um dos primeiros a denunciar o abuso. Mas sobre esse acontecimento o filme arranca apenas isso, e a câmera captura um jeito meio cabisbaixo, pensativo e impotente diante do próprio passado e do que sofreu.

O bom do longa de José Walter Lima é que aos poucos se torna uma pequena delícia ouvir Rogério e sua voz rouca e sua lucidez invejável; Duarte era quando foram feitas as gravações (ele faleceu em 2016) um velhinho cuja característica mais marcante é a barba e bigodes médios, mas extremamente volumosos. Seus olhos se escondem por trás de sua boina e suas sobrancelhas que crescem de maneira a completar a caricatura natural de sua face e do seu jeito. O resto da caricatura está em seu comportamento, com sua dicção ritmada e um jeito com as palavras para conseguir descrever o que não é fácil de resumir.

O filme de Walter Lima, no entanto, “atrapalha” esse processo de descobrir o velhinho por trás dele mesmo usando de uma edição dinâmica, que une tudo que ele diz com trechos de filmes e gravações da época, tentando situar os vários momentos de várias entrevistas com o autor-título e o momento que ele vivia. Em resumo: uma colagem, nada original e faltando um pouco de ritmo.

O longa se divide temporalmente sobre sua fase e importância no movimento da Tropicália, enfocando enfaticamente, quase obsessivamente, sobre a ditadura militar, e discorre aos poucos no que se torna o brinde do filme, que é ouvir sua versão sobre seu próprio eu, no meio daquelas colagens de filmes de Rocha, músicas de Caetano e Gil, anúncios formais do governo brasileiro. Ele cita brevemente sua maior inspiração, o filósofo alemão Max Bense (vira e mexe vemos Duarte indo a exposições na Alemanha), e não se preocupa muito em se tornar erudito demais explicando sua arte da maneira técnica. O interesse maior de Lima, me parece, é extrair o máximo de política possível para falar no filme; nem que ele use alguns momentos do Cinema Novo para reciclar o tema.

E por falar em técnica, aos poucos o lado burocrático do documentário dá lugar ao próprio Rogério, que é maior que isso tudo. Suas tentativas de definição passam pelo racional, mas é fascinante entender como é inatingível as outras camadas do ser, que ele hierarquiza de maneira muito própria, em corpo, mente, inteligência e alma. Assim como a dupla Raul Seixas e Paulo Coelho, ele é um maluco beleza. Diferente deles, ele não parece possuir suas belas histórias retratadas aqui como no excelente documentário Raul – O Início, o Fim e o Meio; ou elas não existem (improvável).

Talvez no documentário não caiba Rogério Duarte inteiro, do começo ao fim; esse poço de “contradições”. Ele se diz no começo ter virado comunista desde jovem, e mais tarde diz ser uma pessoa religiosa e rezar duas horas por dia (“sou teísta”, conclui), em um dos muito paradoxos que mexem com as convenções que estamos acomodados a tomar como verdade. É preciso lembrar nesses momentos que a luta marginal pela existência do controverso não existe para a vasta maioria da sociedade. Quando Rogério fala que disco X “foi um sucesso”, imagino burburinhos de empolgação dentro do prédio da UNE e nos bares frequentados pela elite artística; mas só.

Mentor do movimento Tropicália antes de virar modinha (e ser absorvido pelo establishment), Rogério parece ser preciso ao apontar que o artista é para a burguesia o bobo da corte. Ele se esquece de revelar, contudo, como esse bobo é alimentado com dinheiro público (como, por exemplo, este filme). Suas observações são atraentes para serem degustadas sem passar pelo amargo crivo crítico, mas quando a realidade bate à porta, como ele mesmo diz, não existe sonho tropicalista que resista a um AI-5.

Ele cria um método de criação musical que utiliza uma ideia que pegou de um livro, onde o autor usava cores para vogais; ele os usa também para notas, criando assim uma espécie de padrão para criação de músicas. Da época da entrevista ele tinha duzentas músicas gravadas em seu computador. Não afeito ao clichê de artista, diz ter usado o xadrez como um retorno à socialização, em mais um dos vários momentos viajantes de sua história. Rogério é o tipo do cara que quando foi se consultar com um médico para tomar LSD recebeu uma negativa porque, de acordo com o médico, se ele tomasse ácido nunca mais retornaria.

O caos é algo bonito se olhado da maneira certa. Rogério Duarte com certeza merecia um longa para registrar sua passagem na Terra. Este é um longa que torna isso possível praticamente apenas acompanhando suas viagens e ouvindo-o falar. Ainda bem que foi feito antes dele partir em sua nave espacial.


“Rogério Duarte, o Tropikaoslista” (Brasil, 2016), documentário dirigido por José Walter Lima, com Rogério Duarte, Gilberto Gil, Caetano Veloso.


Trailer – Rogério Duarte, o Tropikaoslista

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