Rio

Com toda evolução das animações nos últimos anos, principalmente em seu lado narrativo, que parece a cada lançamento mais a vontade com a ideia de ser um filme completo e não só uma animaçãozinha (naquele sentido pejorativo que muita gente ainda prefere usar), é ainda de surpreender que Rio aposte, justamente, em uma certa infantilização pouquíssimo interessante.

Dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, depois de emplacar os sucessos de A Era do Gelo (os dois últimos como diretor, o primeiro como co-diretor), agora é hora de contar a história dessa ararinha azul, Blu, que cresce domesticada na gelada Minnesota (depois de ser capturada no próprio Rio de Janeiro por traficantes de animais silvestres), mas acaba se descobrindo o último macho de sua espécie e, com isso, volta para a capital carioca para cruzar com uma fêmea de sua espécie, Jade. Lá, cai mais uma vez nas mãos de traficantes silvestres e é obrigado, agora com uma companhia, a fugir do cativeiro e ainda achar sua dona.

É lógico que o fraquíssimo roteiro, que é uma idéia do próprio Saldanha, porém é escrito por Don Rhymer (que também assinou a “trilogia” Vovó… Zona, o que explica bastante coisa), está ai como uma desculpa para o diretor prestar sua homenagem ao Rio de Janeiro, em toda sua beleza, seu balé de cores, sua natureza exuberante e todos os cartões postais que fossem possíveis serem mostrados. O que demonstra um trabalho tremendamente habilidoso de todo departamento de arte do filme, mas que, mesmo assim, não consegue esconder um ritmo falho e repetitivo, que não deixa Rio empolgar.

O espectador é visualmente arrebatado por todas as cores, e até vai se divertir com a boa caracterização dos personagens (olha ai o departamento de arte novamente!), não só acertando no visual dos animais, mas também apostando em toda personalidade deles, mas é impossível não se entediar com a estrutura quadrada demais e a falta de ambição. Como se estivesse contente em ser apenas uma animação infantil em 3D, onde seu personagem cai, escorrega e corre de algum vilão com cara de mal, entrecortado por alguns números musicais meio canhestros e sem graça (que parecem todas as versões tiradas daquele disco do Sérgio Mendes, Timeless, que, por coincidência ou não, foi quase todo produzido pelo mesmo Will.I.am, do Black Eye Peas e que também empresta a voz aqui, para o passarinho Pedro). E pior, não tendo vergonha nenhuma de, simplesmente, repetir tudo isso algumas (muitas) vezes.

Por outro lado, Saldanha (por ser brasileiro) acaba se aproveitando para brincar (já que, se fosse outro cineasta a patrulha dos politicamente corretos já estaria bradando seu nome por ai), não só com o jeito espalhafatoso e quente do Brasil, ainda mais durante o Carnaval, como com uma certa simpatia que transborda por toda situação. Mesmo que, quando longe das confusões visuais, Rio acabe sendo pouco, ou nada, engraçado… mas as cores, a alegria e o samba acabam contagiando mais do que chateando.

E mesmo com esses furos, Rio acaba sendo uma boa pedida para os menorzinhos, enquanto enchem a boca de pipoca e são hipnotizados pelo 3D, já os maiorzinhos vão até achar irônica a famosa corrida da galinha em Cidade Deus ser encarnada por um outro tipo de ave, mas ao mesmo tempo, ficará completamente incomodado com a desculpa estapafúrdia para os personagens “furarem” um desfile no meio do sambódromo (que convenientemente tinha como tema um monte de aves). Um resultado pouco equilibrado, mas que deve fazer um baita sucesso, já que (como eu já falei e repeti e reiterei) são cores demais, bichos simpáticos demais, samba demais e amor demais para qualquer um se irritar no final das contas.


Rio (EUA, 2011), escrito por Carlos Saldanha e Don Rhymer, dirigido por Carlos Saldanha, no original com vozes de Jesse Eisenberg, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Jamie Foxx, Will. I. Am, Anne Hathaway, George Lopez, Tracy Morgan e Jemaine Clement.


Veja aqui o trailer do filme Rio