Retrato do Amor | Sensível para os olhos, mentes e coração


Sabe aquelas sensações perdidas em um mundo onde as pessoas vivem correndo de um canto para o outro e não têm tempo para apreciar uma tarde quente, ensolarada e movimentada no Portão de Mumbai? Retrato do Amor é um trabalho sensível do diretor indiano Ritesh Batra porque resgata isso para nossos olhos, mentes e corações.

É simbólico que a história comece justo no Portão de Mumbai. Conhecido como a porta de entrada do Ocidente para um mundo exótico, ainda é o centro das idas e vindas de um povo organizado em infinitas vilas que se espalham por centenas de quilômetros continente adentro. Se um taxista encontra um passageiro que veio de uma vila a 40 kms de distância da sua, ele é considerado vizinho. “Eu poderia ir tomar chá em sua casa e voltar no mesmo dia.”

Estratificada e dividida em castas, mas compartilhando dignidade entre todos os envolvidos, a cultura indiana mantém uma aura de hospitalidade que esmaece na cidade grande, onde ninguém conhece mais ninguém e os laços tradicionais (e por que não dizer fraternais) dá lugar ao caos urbano, à divisão de classes e sua inevitável hierarquização financeira. Em um mundo focado apenas nos resultados fica difícil enxergar o valor humano.

É nessa atmosfera melancólica que surge uma garota que é bonita do seu jeito e que esconde o sorriso como uma espécie de auto-preservação. Ela é Miloni, filha de uma família com status financeiro (e, portanto, social) e que segue sua carreira de contabilidade com uma dedicação tão disciplinada quanto mecânica. Miloni lembra uma pessoa que tem a vida perfeita mas que não a reconhece. Ela é bidimensional como personagem, mas conquista nosso carisma graças à atuação contida de Sanya Malhotra, que a transforma em um ser humano contemporâneo a nós, sobreviventes das megalópoles.

Compartilhando o mesmo espaço urbano enquanto passa pelo Portão, Miloni é abordada por Rafi, que cobra por fotografias digitais que ele tira dos turistas e as “revela” na hora com sua impressora portátil. Ele seria apenas mais um “profissional liberal” que barganha oportunidades usando a tecnologia do século 21, mas ao abordar a moça ele usa um discurso encantador: “ao tirar essa foto poderá, anos mais tarde, olhar para ela e sentir o calor dessa tarde e ouvir as pessoas em volta; sem uma foto, tudo isso desaparecerá”.

Rafi é um homem preso pelo passado de seu pai, que contraiu dívidas que fez com que sua avó perdesse a casa onde morava, e por isso ele se penaliza, se mantendo solteiro em uma vida modesta e busca economizar para pagar as dívidas e resgatar o status uma vez perdido da família. Porém, o que Rafi não entende é que para sua avó a definição de família está em apenas uma palavra: netos.

Já tendo trabalhado com o diretor em “The Lunchbox”, o ator Nawazuddin Siddiqui se encaixa perfeitamente nesse papel que mistura contemplação com possibilidades. Sua interpretação, assim como de Sanya, também é minimalista, porque ambos precisam trabalhar nossas percepções do que ocorre internamente com essas duas pessoas quando Rafi pede para ela que finja ser sua namorada para a visita da avó.

Cansado da mesmice da velha história do casal que não deve ficar junto pelas barreiras sociais, o diretor/roteirista Ritesh Batra entende isso como ninguém. Ele sequer cita Bollywood para evitar algo como uma contaminação do estereótipo de “tudo termina em dança”, e na única cena onde há uma sala de cinema envolvida um rato aparece entre as pernas de Miloni. (E isso serve de alerta também a respeito do final do filme, que pode te surpreender… para o bem ou para o mal)

Não, o Sr. Batra não está afim de filmar mais uma amor impossível. Ele mira mais longe, no espaço e no tempo. Ele quer que nos lembremos de sonhos que provavelmente muitos poucos de nós viveram, seja dentro do microcosmos indiano ou em outras regiões do planeta, depois que todos os seres humanos migraram do campo para as cidades. Esse sonho tem a ver com a vida simples, onde a rotina se dividia em acordar cedo para cuidar da terra e dormir cedo para ter forças para o dia seguinte. “Mas não é uma vida tão fácil quanto a poesia quer que seja”, você já deve estar pensando, na defensiva. Se estiver, eu concordo. Mas não é isso que está em jogo. É algo mais profundo.

Para conseguir isso o filme nos traz a avó de Rafi, que é dura, de duas gerações anteriores e mais auto-centrada que esses jovens perdidos nos becos escuros de uma cidade sem coração. Sua participação é minimalista, mas expande os horizontes a ponto da cidade grande ficar pequena. Isso porque ela resgata aquelas sensações perdidas de uma época mais simples. E ela é imperfeita, como todo ser humano É dentro de sua limitada percepção da vida que expandimos nossos horizontes a respeito da Índia, e por que não, do mundo contemporâneo como um todo, com suas (nossas) tradições em colapso. Sem sabermos onde nos agarrar nessa vida agitada, as rugas da avó de Rafi parecem uma fortaleza a nos ensinar o valor do esmero; esculpidas uma a uma, a cada nova preocupação que a criação dos três filhos sozinha a trouxe.

Por tudo isso, Retrato do Amor é mais um título mal traduzido no Brasil (ou pelo menos mal intencionado). Ele quer fugir dos estereótipos que fazem sucesso hoje na Índia e para isso reconstrói uma conexão com o passado. É contemplativo, leve e sensível. Muitos poderão achar lento, mas se divertirão com algumas piadas. Se você entendeu a essência do filme, não os culpe. Você sabe como é difícil se reconectar com os sonhos de uma vida nunca antes vivida.


“Photograph” (Ale/Ind/EUA, 2019), escrito e dirigido por Ritesh Batra, com Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra, Sachin Khedekar.

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