Relatos do Mundo | Não empolga, mas funciona


De um lado, Paul Greengrass é um diretor que está sempre trombando com essa sensação de realidade quase documental enquanto passeou pela ação hollywoodiana e deixou sua assinatura no gênero enquanto pulava com Jason Bourne entre prédios. Do outro, Tom Hanks é um dos maiores atores de sua geração e já esteve com o diretor no tenso Capitão Phillips. Relatos do Mundo, novo filme da Netflix, não empolga tanto quanto os nomes envolvidos.

O filme é baseado no livro de Paulette Jiles de 2016, Relatos do Mundo é um faroeste que tem uma vontade de ser grande, mas é comum e igual demais a muita coisa. Só na última década o cinema acompanhou duas vezes um veterano tendo que levar uma garotinha em uma jornada por um território selvagem. E em ambos os casos, Logan e Bravura Indômita, o resultado é muito mais inspirado do que em Relatos do Mundo.

O filme de Greengrass ainda vai no mesmo lugar de Bravura Indômita, acompanha um veterano da Guerra Civil americana, Capitão Kidd (Hanks), agora vagando por aí, de cidade em cidade enquanto lê as notícias para as pessoas. Isso vai bem até que, em um certo dia, cruza o caminho de uma garotinha órfã (Helena Zengel) que, aparentemente foi criada por uma tribo de índios, mas é filha de um casal de colonos estrangeiros. Agora, após sua tribo ser dizimada por soldados, ela precisa encontra seus tios, que cuidarão dela.

A responsabilidade de leva-la até lá acaba ficando com Kidd e os dois precisam atravessar um território perigoso. Logicamente, como todo mundo pode imaginar, a dupla aos poucos vai criando uma ligação e Kidd vai aprendendo que precisa ultrapassar os traumas do passado enquanto sobrevive. Nada de muito criativo.

O roteiro escrito por Greengrass e Luke Davies (mesmo indicado ao Oscar por Lion) é objetivo em absolutamente todas suas intenções, o que é ótimo para Relatos do Mundo. Sem ter muitas surpresas, ele vai caminhando diretamente para cada conflito e situação desse “road movie” de faroeste. Portanto, nenhum pequeno arco fica preso ao cenário maior e tudo se resolve com eficiência, o que resulta em um ritmo interessante, mesmo sem surpresas.

Desse modo, Relatos do Mundo segue limpo e sem tropeços, não tem grandes momentos de emoção além de um tiroteio com três bandidos genéricos, mas é uma oportunidade de passear por esses cenários excêntricos e cheios de gente com cara de faroeste. Esqueçam a limpeza de John Wayne e mergulhem naquele tipo de realidade suja e distorcida por uma terra sem leis.

Do mesmo jeito, por mais que tenha um coração enorme, o Capitão Kidd de Hanks nunca é um herói vistoso, é apenas alguém que já passou por tudo e agora só quer ir de cidade em cidade sem muito objetivo. A pequena garotinha se torna esse objetivo, mas nunca se permite ser uma desculpa para esperança ou qualquer outra bobagem melodramática, é apenas uma responsabilidade. Esse laço emocional entre os dois cresce sem forçar nenhuma barra, soa natural e nunca força o filme a tomar nenhum caminho de sacrifício ou exagero emocional.

Essas opções de Greengrass podem não criar um filme engenhoso dentro de sua estrutura óbvia, mas tem personalidade. Tem um ritmo próprio e que nunca se permite aceitar ser um faroeste com tiros e heróis, está interessado tanto na construção desse mundo, quanto nesses personagens lidando com essa jornada. Não empolga, mas não chateia.

Por outro lado, essa vontade de colocar os personagens em situações que mostrem esse velho oeste, em alguns momentos não corrobora com a inteligência e instinto de sobrevivência dos personagens, principalmente de Kidd. Sua partida para a viagem parece despreparada demais, assim como sua decisão de enfrentar um rico caçador de búfalos com um pouco de socialismo não parece ser um meio esperto de continuar vivo.

Mas mesmo nos momentos mais burros, o Kidd de Hanks é sempre o resultado de uma composição interessante. Nada de muito inesquecível e sem em nenhum momento tendo a oportunidade de um grande momento em mãos, quase em um piloto automático, mas sabe como é, Hanks no piloto automático é ainda melhor do que a grande maioria de Hollywood.

Quem também tem um piloto-automático acima da média é Greengrass. Mesmo sem grandes momentos, Relatos do Mundo é um filme bonito, objetivo e é fácil de acompanhar cada cena e situação. Sua câmera está sempre economicamente no lugar mais direto para valorizar o trabalho dos atores e isso resulta em um filme que soa visualmente simples, mas que tem muito esforço estética por trás dessa “simplicidade”.

Com Greengrass e Hanks na ponta de Relatos do Mundo, sobra ainda espaço para um trabalho poderoso de Helene Zengel. A garotinha nunca se intimida diante dos dois e segura sua personagem com seriedade e sensibilidade.

E talvez isso seja o retrato de Relatos do Mundo, um filme que pode não surpreender, mas faz um trabalho sério e conta uma história sensível e que funciona, mesmo sem nenhuma novidade.


“News of the World” (EUA, 2020); escrito por Paul Greengrass e Luke Davies, a partir do livro de Paulette Jiles; dirigido por Paul Greengrass; com Tom Hanks, Helene Zengel, Tom Astor, Elizabethe Marvel, Michael Angelo Covino, Rey McKinnon e Mare Winningham