Regresso a Reims | Crítica do Filme | CinemAqui

Regresso a Reims | Um vídeo-ensaio chato


Enquanto Regresso a Reims é um livro de memórias do filósofo francês Didier Eribon, o documentário de mesmo nome mais parece um grande e entediante vídeo ensaio. Os objetivos podem até serem os mesmos, mas o resultado não chega em lugar nenhum a não ser aqueles que o autor já tinha chegado.

Como o próprio título do filme promete, são apenas fragmentos, organizados pelo diretor Jean-Gabriel Périot e narrados pela estrela de Retrato de Uma Jovem em Chamas, Adèle Haenel. Já o que surge na tela são imagens de arquivo, velhos filmes e séries, tudo servindo para ancorar a atenção do espectador por meio de imagens e não só de palavras.

Mas Regresso a Reims tem algo de interessante, afinal é ainda um pouco do trabalho do escritor enquanto vai desvendando sua origem a partir do movimento de trabalhadores da França. Desde seus avós, até seus pais. Décadas de um país que achata essa fatia da sociedade e não se cansa de culminar sempre nos mesmos erros de ambos os lados da equação.

Périot apenas permite que o texto de Eribon discorra sobre essa inevitabilidade que congela qualquer chance de mudança. O filósofo enxerga com clareza esse distanciamento social e a imposição confortável de um mundo que sabe o quanto as pessoas não sentem falta de qualquer coisa que nunca tiveram ou viram.

O diretor consegue realmente passar todas essas e mais um monte de outras mensagens através de imagens, mas em nenhum momento isso acrescenta nada à experiência. É tudo apenas uma repetição conceitual, como uma vontade tão grande de contar essa história que a barreira do bom senso estético e narrativo não o impedisse de continuar seguindo por esse caminho, mesmo já tendo chegado onde queria.

Didático demais até. O retrato de uma França segregada pela pobreza e uma divisão tão crescente de espaço entre suas classes que só cresceu durante o século 20 é algo que fica claro no texto de Eribon, mas nas imagens de Périot, são apenas esquecíveis. Falta proximidade com as intenções do diretor.

Mesmo sendo uma espécie de tratado a respeito da classe trabalhadora da França, Regresso a Eribon é apenas isso que ele quer ser, alguns fragmentos, mas sem nunca se preocupar com o retrato maior desse cenário, já que esse monte de imagens não extrapola nem por um frame as intenções originais do texto.

Mas se o filme servir para que o espectador procure conhecer o autor, suas ideias e pensamentos, talvez ele cumpra uma função importante, mas mesmo assim é pouco para não chatear e entediar o espectador.


“Retour à Reims (Fragments)” (Fra, 2021); escrito e dirigido por Jean-Gabriel Périot, a partir do livro de Didier Eribon


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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