Rango

Por Vinicius Carlos Vieira em 11 de Março de 2011

Desde os primeiros acordes dos créditos iniciais “Rango” é um faroeste, e tanto o logotipo do título quanto as quatro corujas mariachis não deixam espaço para que se espere nada, além disso, ainda que, logo depois o filme corte para um lagarto de camisa havaiana em um monólogo esquizofrênico com um peixe de corda, uma boneca sem cabeça e uma palmeira de plástico, aliás, é esse simpático réptil que acaba dando ao cinema, desde já, um dos filmes mais deliciosos desse ano.

Muito embora seja esse lagartinho a principal estrela de “Rango”, talvez seja justamente o nome do “diversificado” Gore Verbinski que mais pule aos olhos, já que, depois de ir de gênero em gênero (da comédia infantil “Um Ratinho Encrenqueiro” à aventura “Piratas do Caribe”, passando ainda pelo terror “O Chamado”) agora parece ser à hora perfeita para essa rica homenagem ao faroeste. Uma ode que não se cansa de suas referências e parece tremendamente preocupado em encher a tela do cinema com um orgulhoso faroeste.

Mas voltando àquele lagarto lá do primeiro parágrafo, o filme começa justamente com essa sua solidão dentro de um aquário, em uma peça onde o próprio procura a definição de seu personagem naquele palco. Esses seus “problemas narrativos” acabam sendo resolvidos quando seu aquário é arremessado pela janela do carro de seu dono e ele então se vê, mais sozinho ainda, no meio do deserto de Mojave (logo depois até de pegar uma pequena carona com o jornalista Hunter S. Thompson, provavelmente indo em direção à famosa cobertura da corrida de motos, que deu as caras no cinema em “Medo e Delírio em Las Vegas”, coincidência ou não, interpretado pelo mesmo Johnny Depp que empresta a voz para o lagarto Rango na versão original).

Depois de perambular pelo deserto escaldante, o lagarto acaba dando de cara com uma pequena cidadezinha chamada Poeira e a possibilidade de, então, se tornar alguém mais que um personagem sem nome (ou talvez mais que um “pistoleiro sem nome”), e aí que nasce Rango (um diminutivo de Durango, e uma prova camaleônica de um mecanismo de sobrevivência): um corajoso cowboy que vem lá de “lá longe do oeste” (Far Oeste) e acaba se tornando a única esperança de Poeira contra uma seca que está podo em risco todos habitantes da cidade.

E “Rango” é exatamente isso, um desfile irretocável de referências, personagens, ângulos de câmera, situações e composições que, provavelmente, já foram vistos em vários lugares, mas, ao mesmo tempo, parecem compartilhar uma vivacidade nova e surpreendente. A trama passa por uma moça que perdeu o pai e luta para não vender seu rancho, por um prefeito que, não só é a cara do personagem de John Huston em sua cadeira de rodas em “Chinatown”, como também sabe que “quem detém a água detém o poder” (exatamente como no filme de Roman Polanski), e até um pistoleiro vestido de preto, que se esgueira pela trama, como Lee Van Cleef em “Três Homens em Conflito”, mas também tem uma pitadinha daquele Jack Palance que chega à cidade para resolver o “problema Shane” em “Os Brutos Também Amam”.

Os olhos atentos ganharam uma enormidade de presentes, de duelos ao meio dia, ângulos fechados nos olhos e o famoso monte de feno, mas, em nenhum momento vão sentir aquilo fazendo o filme de refém, toda trama (de John Logan, do próprio Verbinski e de James Ward Byrkit), usam esse matéria como um ponto de partida, uma colagem, é verdade (até mais que isso, uma clara homenagem), mas um resultado preocupado em fazer tudo ter sentido. Que não inventa estruturas surpreendentes, mas faz o lugar comum parecer novo, justamente por um certo cinismo de usar tudo aquilo, de fazer um filme de faroeste com animais falantes que se levam à sério, cheio de personalidade e que estão ali para serem eles mesmos, e não uma espécie de filial de qualquer empresa de animação do mercado. “Rango”, principalmente, tem uma baita personalidade (tanto na idéia quanto em sua direção de arte, ambos impecáveis), e isso conquistará todos que se aventurarem nessa primeira animação da Industrial Light and Magic.

Por outro lado, não só os grandinhos ganharão esse filme divertidíssimo, sobrará ainda para os menorzinhos um ótimo ritmo, um monte de aventura e muita comédia para completar. Mas, sem sombra de dúvida, vai se divertir muito mais quem perceber os morcegos entrando no lugar dos helicópteros, com a “Cavalgada das Valkírias” tocada no banjo (além da trilha sonora de Hans Zimmer em mais um daqueles momentos geniais do autor, que, graças a uma idéia sensacional compartilha de suas músicas, na maioria das vezes, com um ou outro personagem tocando-a dentro do próprio filme) e um certo “espírito do oeste”, com um poncho sobre os ombros, uma cara de mau (para o Sergio Leone, no caso, “O Bom”) e um carrinho de golfe cheio de estatuetas douradas dependuradas em sua traseira.

veja aqui o trailer do filme Rango

_____________________________________________________________________________________________

Rango (EUA, 2011), escrito John Logan, Gore Verbinski e de James Ward Byrkit, dirigido por Gore Verbinski, com vozes (no original) de Johnny Depp, Isla Fischer, Abigail Breslin, Ned Beatty, Bill Nighy, Ray Winstone, Alfred Molina, Harry Dean Staton e Timothy Olyphant.

‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾‾

Quer receber as melhores notícias do cinema?

Inscreva-se na newsletter do CinemAqui e receba um resumo semanal do que está acontecendo no mundo dos filmes.