Quem Quer Ser um Milionário Filme

Quem Quer Ser Um Milionário

Quem Quer Ser Um Milionário não é grandioso, não custou rios de dinheiro, não conta com um elenco cheio de estrelas, na verdade com nenhuma (pelo menos para os menos a vontade com o cinema de Bolywood), não tenta entrar para história e muito menos discutir os problemas do mundo, seu grande acerto é simplesmente saber do que é capaz e conseguir com que todos andem nesse mesmo ritmo. Em uma sintonia completa.

O roteiro de Simon Beaufoy não inova em sua estrutura narrativa (alguém mais lembrou de Brian Singer e seu Os Suspeitos ou foi só eu?), e nem Boyle faz muito mais do que vem fazendo em seus filmes, é essa sintonia com que, não só eles, mas todo resto, tanto elenco quanto técnicos, parecem ter que resulta em um acerto na mosca. Boyle faz a forma do filme seguir seu tema (parafraseando Sidney Lumet) e indica, perfeitamente, esse mesmo caminho para todos a sua volta. Sem seguir uma fórmula engessada, mas apenas tentando percorrer alguns caminhos simples, com consequencias garantidas, que resultam em um filme cativante de seu início ao seu fim.

É fácil perceber como o direto inglês consegue isso, como quando em seu começo, faz todo cinema se perder diante da primeira sequencia, sem entender por que aquele cara parece estar sendo torturado por simplesmente estar na última pergunta de um programa de TV (para os abduzidos, o Who Wants to be a Millionaire, batizado no Brasil como Show do Milhão). Pronto, o bastante para fisgar toda a platéia sedenta para entender como aquilo chegou àquele ponto.

Boyle resolve o maior problema do filme exatamente ali, quando cria uma empatia incrível com o personagem principal, contagiando por completo todos espectadores, que, automaticamente, se colocam em seu lugar (sempre o do mais fraco), mesmo artifício que fez Brian Singer enganar todos em seu Os Suspeito (olha ele aí de novo), mas que, logicamente, não resulta do mesmo jeito aqui, e isso não é nenhum Spoiler, já que Boyle não parece preocupado em nenhum segundo do filme com isso. Você sabe o final, na verdade desconfia, só quer entendê-lo, saber como a trama vai de “A” para “B”, ou, como o próprio apresentador do programa fala: de mendigo a rajá.

O filme é exatamente dividido, episodicamente, em cada resposta que ele deu dentro do programa, mostrando como um ex-morador de rua conseguiu saber todas elas e o que levou-o até aquela cadeira no programa de TV. Se por um lado, encarcera o filme nessa estrutura, por outro, faz ele se tornar extremamente leve e linear, facilmente assimilável, mastigado e totalmente descomplicado, uma combinação que em mão erradas, afundaria qualquer filme, mas que aqui, com o roteiro de Simon Beaufoy (que escreveu o ótimo Ou Tudo ou Nada), consegue fazer disso sua arma, resultando em precisão pura. Seu roteiro sabe para onde apontar desde seu início, prima por se correto em suas resoluções, e apresenta uma preocupação extra em não se deixar cair em uma fantasia fácil, para isso, se apega ao real e segue uma linha lógica até o final. Como, nas palavras do inspetor, que também serve como ouvinte da história toda (como uma representação dado espectador, que precisa ser convencido): “tudo estranho e plausível, mas no fim sincero”.

Boyle conta ainda com uma montagem que se mostra segura, que finge criar um clima acelerado, mas que na verdade deixa a ação percorrer o filme com calma, fluindo muito bem e fazendo a cama perfeita para o diretor repetir o que sempre fez em sua carreira: um filme bacana. Não no sentido moderno, mas no sentido de boa praça, que agrada a grande maioria, que parece sempre atentar a contar uma história do jeito mais simples, seja o gênero que for, mas sempre preocupado com o conjunto e não com uma ou outra cena, logicamente sempre com uma certa assinatura estética, e até meio peculiar, ora meio torto ora colado na ação para logo se tornar meio displicente, mas sempre objetiva.  Mas antes de qualquer coisa, Quem Quer Ser Um Milionário tem uma direção que impressiona pelo todo, pelo jeito como aquela história é contada.

Boyle vai um pouco mais longe ainda ao jogar com uma ou outra sutileza para criar um retrato fiel de um lado da Índia pouco conhecido, coisa que pode parecer superficial, mas na verdade acaba sendo o caminho mais lógico ser tomar, não deixando uma crítica mais acirrada atrapalhar o andamento do filme. Carregando a trama de um jeito agradável, sem confundir com algo menos profundo, mas que no fim, passa muito bem o que quer. Ou você não percebeu que o Taj Mahal, maior símbolo do país (segundo talvez, com Gandhi sendo o primeiro) está a dois passos de um grande lixão?

Mas criticas sociais à parte, Quem Quer Ser Um Milionário tem uma grande vantagem sobre o grande resto do cinema atual: um otimismo que parece esquecido em Hollywood. Uma sinceridade que esse filme inglês teve que ir até Bolywood para encontrar, uma certa inocência pura, sem segundas intenções e leituras escondidas por trás de metáforas, apenas um filme que exalta, por mais piegas que possa parecer, o amor, sem vergonha disso. Que conquista com essa simplicidade e que ainda faz todos refletirem se alguns milhões podem realmente resolver. Um questionamento que, com certeza, deve ter batido, não só na cabeça de todos espectadores, mas também, na dos engravatados de Hollywood.


Slumdog Millionarie (RU, 2008) escrito por Simon Beaufoy, a partir do livro de Vikas Swarup, dirigido por Danny Boyle, com Dev Patel, Ayush Mahesh, Khe Dekar, Irrfan Khan e Freida Pinto.