Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa | Ou “Quando Fugi da Alemanha e Tudo Deu Certo”


Quando a lenda é melhor que a realidade, imprima o mito. A frase talvez tenha nascido no clássico O Homem que Matou o Facínora, lá em 1962, mas com certeza devia ser um exemplo a ser seguido por toda e qualquer cinebiografia do cinema. Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa não é bem uma biografia, mas é a adaptação de um material baseado na história real da autora Judith Kerr. Porém a realidade é chata, então que se caminhasse pela ficção.

Kerr foi movida a escrever o livro décadas depois do final da Segunda Guerra, só em 1971, quando resolveu contar para seus filhos a jornada dela e de sua família ao escaparem de Berlin dias antes da eleição de Adolf Hitler. Judeus, socialistas e com o pai sendo um crítico de teatro e mais ferrenho ainda crítico do nazismo e de Hitler, a única opção da família seria fugir antes que se tornassem alvos desse novo regime alemão.

O livro e o filme acompanham essa escapada e as dificuldades da família enquanto tentam buscar refúgio na Suíça antes de tentarem encontrar uma vida mais digna em Paris. O tal do coelho rosa ficou para trás em Berlim, de onde eles não mais voltaram.

A adaptação é escrita por Caroline Link e Anna Bruggemann. A primeira uma indicada ao Oscar em 1996 por seu A Música e o Silêncio e curiosamente, recentemente, tendo realizado o simpático O Menino que Fazia Rir, outra cinebiografia, mas esse com muito mais segurança para dramatizar a realidade. Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa pode até funcionar como jornada no livro, mas no cinema, sem grandes reviravoltas, motivações e apenas uma linha reta repleta de realidade faz nascer um resultado enfadonho.

Nada acontece no filme de Link. Por mais que essa família esteja fugindo dos nazistas, nunca parece existir um perigo real, nem de perto, nem de longe. Enquanto no livro toda essa situação é enxergada pela ótica mais infantil da protagonista, aqui tudo se permite ser realista demais. A grande verdade é que não existia perigo nenhum para aquela família, eles tomaram todas decisões corretas e praticaram uma fuga perfeita, mas sem muita emoção.

Nem a direção de Link valoriza nada a não ser o que está na tela realmente, nem seu trabalho procura qualquer significado, tensão ou possibilidade de surpreender o espectador. Talvez os fãs da autora e do livro enxerguem os easter-eggs da construção da personalidade dessa garotinha que um dia se tornará uma escritora celebrada, mas fora do público já iniciado, o que resta é só um caminho entediante.

Talvez uma recriação de época cuidadosa da direção de arte e ótimas atuações do quarteto de atores principais salve Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa de uma chateação maior, mas mesmo assim falta talvez até uma coragem de arranca um pouco o filme da realidade e aceitar o quanto o fantástico ou aquilo que está fora daquela verdade iriam fazer muito bem para a história.

Falta talvez um olhar inocente diante de uma realidade perturbadora, talvez falte para Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa a emoção de estar contando uma história que merecia um pouco mais de ficção diante do que realmente aconteceu.

Faz realmente falta o tom excêntrico do título chamativo. Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa não merece o tédio desse filme, talvez fosse melhor que se chamasse algo como “Quando Fugi da Alemanha e Tudo Deu Certo”, assim ninguém seria enganado pelo título e teria um título chato para um filme chato.


“As Hitler Das Rosa Kaninchen Stahl” (Ale, 2019); escrito por Caroline Link e Anna Bruggemann, a partir do livro de Judith Kerr; com Riva Krymalowski, Marinus Hohmann, Carla Juri, Ursula Werner e Oliver Masucci