Protegendo o Inimigo

Protegendo o Inimigo tem uma câmera mexida, é repleto de ângulos fechados, uma fotografia estourada com cores transbordando (e suando) por seus personagens, tem até o Denzel Washington, mas pasmem, não é dirigido por Tony Scott, ainda que o sueco (com Protegendo o Inimigonome de latino) Daniel Espinosa, diretor, não pareça fazer muita questão de fugir desse estigma que deve pegá-lo assim que qualquer pessoa se deparar com seu filme.

E não que isso seja um elogio, já que Scott não vem lá se esforçando para fazer algo muito mais interessante do que começo de carreira (com Amor à Queima-Roupa e Top Gun), mas tampouco é um ponto fraco dessa thriller de espionagem que se não empolga tanto por sua trama, pelo menos fica bem longe de chatear o espectador que vai ao cinema em busca de ação.

Bem verdade, porém, Protegendo o Inimigo acaba só não chegando mais longe diante de uma aparente apatia narrativa com que Espinosa carrega sua trama, já que escolhe o caminho mais limpo e linear para contar a história desse agente da CIA em começo de carreira, Matt Weston (Ryan Reinolds), que acaba relegado a tomar conta de um abrigo da agência americana no meio da Cidade do Cabo, na África do Sul. Entre o tédio (com direito até a bolinha na parede ao melhor estilo Steve McQueen “fugindo do inferno”) e a vontade de mostrar serviço para seu superior, afim de uma promoção para agente de campo, acaba recebendo a “visita” de um ex-expião, Tobin Frost (Denzel Washington), capturado e em vias de ser interrogado.

O problema é que esse mesmo Frost parece então estar sendo perseguido por um grupo de agentes que invadem o abrigo e obrigam Weston a fugir com seu prisioneiro, enquanto que, aos poucos, acaba descobrindo que talvez Frost não esteja tão errado assim em suas ações.

Mas durante boa parte do tempo Protegendo o Inimigo acaba sendo sobre essa perseguição onde Weston é pego no meio do furacão e, mais que apenas sobreviver, acaba se sentindo obrigado a cumprir com sua função para, quem sabe, mostrar que já tem experiência suficiente para aquele cargo almejado. E por mais que isso crie essa dinâmica divertida, onde Frost, pelo menos aos olhos de Weston, é o inimigo que precisa ser protegido dos outros inimigos, por outro não permite que o espectador se empolgue tanto com esse fator quanto os personagens o fazem.

De modo pouco inspirado, o roteiro de David Guggenhein não tem a coragem de permitir que o espectador tenha sequer um momento de dúvida, já que, após perder um enorme tempo traçando a personalidade desse agente vivido por Reynolds, baseado completamente em clichês descartáveis (o treino de boxe, o humor simpático, a namorada médica, a promoção e até a bolinha de tênis), não consegue “segurar a emoção” de apresentar Frost com a mesma profundidade sem deixar nenhum nuance possível de seu personagem para ser encontrada depois.

Espinosa então não parece sentir a necessidade de fugir disso e até se diverte colocando osprimeiros perseguidores de Frost com cara de terroristas islâmicos (em Hollywood, fugiu de árabe, você é o mocinho!), o que leva a pensar que, talvez, Espinosa e Guggenhein cometam o erro (ou tenham a preocupação exacerbada) de fugir de qualquer semelhança com o O Dia de Treinamento (não só pela dinâmica experiência/novato, como pela presença de Washington) e acabam não percebendo o quanto ali estava a fórmula para que “Protegendo o Inimigo” decolasse, já que, a seu favor, ainda teria a possibilidade de uma série muito maior de cenas de ação e até um clima de suspense de espionagem que o tornaria um produto completamente diferente.

Protegendo o Inimigo Filme

Indo nessa contramão Protegendo o Inimigo, então, desenvolve demais seus dois personagens principais nesse começo, não permite que os dois criem um laço maior e, em pouco tempo, relega todo conflito do filme a uma questão envolvendo um traidor dentro da própria CIA, coisa que é resolvida de modo óbvio e preguiçoso, já que não deixa espaço para que seja de outro modo a não ser esse, que, no final das contas, atinge em cheio o protagonista (como seria de se esperar).

Por outro lado, Espinosa parece bem confortável quando o assunto é ação e emprega um jeitão visceral de compor suas sequências, sempre parecendo doloridas e nunca simplificadas, sem perder o foco da ação (mesmo com a câmera bem próxima) e criando um ritmo interessante com a diversidade de câmeras, seja em uma perseguição pelo meio de uma favela (geograficamente difícil, mas que aqui ganha composições bem interessantes), seja em um embate entre Wade e um outro agente da CIA mais para o final do filme, onde Espinosa mostra uma vontade de cobrir todos ângulos (mesmo que tome um cuidado imenso para não fugir do comum).

Protegendo o Inimigo se contenta sendo esse thriller de espionagem esquecível, descartável, com um Denzel Washington no piloto automático, um punhado de sequências de ação que não fazem feio, tampouco empolgam, mas que, no final das contas, servem mais para que esse diretor sueco tenha a oportunidade de pisar em Hollywood e, quem sabe na próxima vez,não ganhar a oportunidade de comandar algum projeto rejeitado por Tony Scott.


Safe House (EUA/ZAF, 2012) escrito por David Guggenheim , dirigido por Daniel Espinosa , com Denzel Washington, Ryan Reynolds, Vera Farmiga, Brendan Gleeson, Robert Patrick e Sam Shepard.


Trailer