O Preço da Fama Filme

O Preço da Fama

No começo de O Preço da Fama somos avisados de que a história se baseia em fatos verídicos. O fato em si foi o roubo do caixão de Charles Chaplin, na Suíça (sua morada por 25 anos), por dois imigrantes desempregados, e a posterior tentativa de resgate. No entanto, os detalhes em torno desse único fato são aumentados em doses desproporcionais pela imaginação do curioso diretor Xavier Beauvois.

Essa reimaginação dos fatos altera até as nacionalidades dos imigrantes (originalmente polonês e búlgaro). Eddy, recém liberto da prisão, é um animado belga que, aparentemente, gosta de ter ideias mirabolantes para conseguir dinheiro sem trabalhar. Já o argeliano Osman (Roschdy Zem) possui uma filha e uma esposa e trabalha em bicos pela cidade para sustentar sua família, principalmente agora que sua mulher se encontra internada com problemas de saúde.

Osman deve algo a Eddy, o que o faz buscar na saída da prisão e arrumar um trailer do lado de sua casa para ele ficar. “Por uma questão de princípios”, responde à sua filha, a pequena Samira (a estreante e competente Séli Gmach). Participando ativamente da rotina da garota, e levando-a a lugares que ela nunca conheceu, Eddy acaba virando parte informal da família. Ou até formal, quando ao participar do Natal com eles, presenteia o amigo com uma televisão, que rapidamente vira o gancho para que eles descubram que Chaplin, antes próximo do seu personagem miserável Carlitos, acabara de falecer em condições financeiras abastadas.

E é aí que começamos a conhecer as origens das desconfianças de Osman para com Eddy, ao ouvir sua “brilhante” ideia: roubar o caixão de Chaplin e pedir o dinheiro de resgate. A princípio relutante, a conta do hospital bate à porte de Osman, e tendo sido gentilmente descartado do sistema financeiro de empréstimos dos bancos suícos, Osman enxerga na ideia maluca do amigo a única chance de conseguir trazer sua esposa de volta.

O Preço da Fama Crítica

Gerando empatia desde o começo com um ritmo lento e observador, o diretor Xavier Beauvois consegue atrair a atenção do espectador para esses acontecimentos com a leveza que merece um filme que contém Charles Chaplin como seu núcleo demo a nunca se tornar enfadonho. Porém, essa mesma leveza (ou inanição) sabota demais a ação, ou até o destino de seus personagens, até mesmo o próprio protagonista, o irreverente e atrapalhado Eddy, interpretado pelo ótimo Benoît Poelvoorde (3 Corações), mas ainda assim preso a um estereótipo que não faz jus ao seu papel, e cuja conclusão é arrastada sem muitos motivos senão licença poética.

Da mesma forma, a partipação especial de Peter Coyote como o secretário fiel ao patrão (e que lutou no exército inglês) é o tipo de coisa que é bonito de ver pela interpretação do astro, mas confuso em encontrarmos sua função.

Aliás, voltando para a licença poética, isso é o que é feito quando o filme usa exaustivamente a trilha sonora de Luzes da Cidade que, embora fascinante, vira uma quase-muleta em diversos momentos. O resultado de Beauvois se sai muitíssimo melhor quando ele tenta inverter expectativas no melhor estilo Chapliniano, como na sequência do resgate ou até mesmo a sutil homenagem ao cinema mudo feita durante um diálogo em que a chuva abafa a fala dos personagens. Ainda assim, foge muito da proposta inicial, e acaba deixando a trama meio sem rumo.

Em todos esses altos e baixos, o saldo de O Preço da Fama acaba sendo positivo. Para uma história inspirada em fatos reais, há a ilusão do surreal e a alma de Carlitos o suficiente para adorarmos o resultado, nem que seja pela pura nostalgia e o desejo de continuarmos o sonhos de assistir um novo filme com o vagabundo imortal.


“La Rançon de la Gloire” (Fra. 2014), escrito por Xavier Beauvois e Ettienne Comar, dirigido por Xavier Beuvois, com Benoit Poelvoorde, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni e Peter Coyote


Trailer – O Preço da Fama