Praia do Futuro | Uma experiência visceral e sensível

Praia do Futuro

Retire da frente os esquemas pasteurizados, as emoções fáceis e os personagens comuns. Fuja do amor simplista, das reviravoltas previsíveis e das conclusões frágeis. Faça tudo isso e encontre o cinema de Karim Ainouz. Siga esse caminho e de cara com Praia do Futuro, seu mais novo filme.

Nele, três personagens veem suas vidas mudarem após um incidente na praia que batiza a história, em Fortaleza. Donato (Wagner Moura), um salva-vidas que pela primeira vez não consegue impedir o pior, Konrad (Clemens Schink) um motoqueiro que perde o amigo no acidente e ainda Ayrton (Jesuíta Barbosa), irmão mais novo de Donato, que enxerga nele um super-herói imbatível.

E Praia do Futuro é justamente sobre essa “imbatividade”. Sobre estar em um mundo onde nada pode acertá-lo, mas que ao mesmo tempo precisa se esconder de seus próprios sentimentos. É então esse incidente, esse ponto de ruptura, que faz os caminhos de Donato e Konrad se transporem e evoluírem para um amor que ultrapassa qualquer barreira de lingua, lugar ou preconceito. Uma história sensível e humana, com um visual lírico e inspirado. Um exemplo de como o cinema pode (e deve) contar uma história de personagens, e não apenas de situações.

Ainouz (que também escreveu o roteiro com Felipe Bragança) aposta então nisso, nesses três personagens. Nesses três momentos que delineiam seu filme. Não três atos (por mais que sejam), mas sim três encruzilhadas onde cada um desses três personagens se encontram e decidem que caminho seguir. Seja de volta para a casa, seja em um lugar onde ele é aceito como ele é (ainda que tenha que deixar o passado para trás), ou, finalmente, rumo ao futuro, mesmo que a visão só alcance o começo da névoa.

Praia do Futuro então é poético, te faz pensar, refletir. Comparar o “balé” submerso que resulta em tragédia com o nado sozinho de quem toma um outro caminho, ou a impressão de estar afogado, rodeado de água e vencendo seu medo para reencontrar um pedaço de seu passado que teima em não lhe abandonar. Um sentimento que moveu Ayrton e se entranhou em sua vida como o sal que corroe o ferro, que lhe moveu até um outro país, um outro mundo, para encontrar “um fantasma”, que um dia foi um herói e lhe jurou até uma praia sem mar, mas abandonou essas promessas pelo medo de encarar a realidade.

E como Ainouz deixa bem claro nos últimos instantes do filme, Praia do Futuro é também sobre o medo. Sobre essa “praia sem mar”, esse lugar onde o seu maior temor pode ser ignorado. Para Konrad, o amor; para Donato, o lugar onde ele pode ser ele mesmo; e para Ayrton, o próprio irmão.

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Ainouz então despe seus personagens na frente de um cinema que consegue penetrar em suas almas através de seus olhares sensíveis. Libertando-os das amarras do plano e deixando seus caminhos fugirem dos enquadramentos. Observando-os nessas viagens ainda que o barco balançando não lhe permita encontrar o horizonte. Uma câmera sutil e ao mesmo tempo poderosas que não deixa escapar os sentimentos, mas encara de frente seus personagens.

E esses são o outro lado dessa experiência intocável, com Schink passeando com sutileza pela dor contida e Jesuíta movido por uma raiva explosiva. Mas o destaque mesmo para Wagner Moura, em mais uma atuação monstruosa, que toma o filme e cria três lados de um mesmo personagem, com uma leveza e um detalhamento tão grandes que é quase hipnótico. Do jovem inseguro descobrindo o amor, ao adulto feliz encontrando a felicidade estampada em seu rosto, até um terceiro momento, cansado, mais longe do que nunca de seu passado, em casa, mas como se fadado a viver sem um pedaço de si mesmo.

E isso talvez seja o que resuma melhor Praia do Futuro: esses três momentos. Um caminho que evolui da tragédia onde se cria o amor em uma praia, até uma outra praia, em um outro tempo e em um outro lugar onde se descobre que o medo para alguns é combustível para a coragem de fazer aquilo que deve ser feito para fechar a porta do passado e abrir a do futuro.


“Idem” (Bra/Ale, 2014), ecrito por Karim Ainouz e Felipe Bragança, dirigido por Karim Ainouz, com Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuita Barbosa


Trailer do filme Praia do Futuro

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