Porta dos Fundos: Contrato Vitalício

Porta dos Fundo: Contrato Vitalício

Talvez um dos maiores fenômenos da internet brasileira, o grupo Porta dos Fundos tinha várias opções para dar o próximo passo e chegar aos cinemas; escolheu uma delas e manteve essa ideia. Porta dos Fundos – Contrato Vitalício é esse resultado, e ainda que fique bem aquém de certos momentos do humorístico, já merece aplausos pela firmeza e a coragem com que levaram esse projeto para frente.

Diferente do que se poderia esperar, Contrato Vitalício não é um filme de sketchs, tampouco é refém de algum quadro ou personagem que tenha feito sucesso no Youtube, Contrato Vitalício nasce de uma premissa inédita e que mostra que os comediantes tem sim a capacidade de mostrarem um material mais longo e conciso. E diga-se de passagem uma trama que conquista muito mais pela ideia inicial do que pela realização.

Nela, Gregorio Duvivier vive um diretor de cinema indicado a Cannes que viaja para a França com seu ator principal vivido por Fabio Porchat. A grande surpresa ai é que o filme deles acaba ganhando a Palma de Ouro, e na manhã seguinte a uma festa incrível com todos “famosões” do Festival, o diretor some dentro do banheiro do quarto.

A trama então dá um salto de dez anos, com o ator voltando à Cannes como jurado, até que dá de cara com o diretor saindo do banheiro alegando uma abdução por “intraterrenos” onde foi escravizado e depois liderou uma rebelião, premissa que também servirá de roteiro para seu próximo filme, estrelado pelo grande amigo, que em um momento de bebedeira na tal festa dos ganhadores assinou um certo contrato vitalício do título.

O que se segue então é o diretor transformando a vida do ator em um enorme inferno, justamente quando o segundo mais buscava o reconhecimento por seu talento e voos mais altos na carreira. E com isso em mãos, Contrato Vitalício encontra espaço para ser uma crítica nada velada à intelectualização e o vazia da cultura. Ok, nada tao profundo assim, mas que a discussão está lá, com certeza ela está.

Por outro lado, quem sai perdendo com esse formato mais esticado é o humor e a agilidade que tanto caracteriza o grupo. Não que o filme não seja engraçado, ele é, mas tudo parece muito mais contido por uma vontade de fazer sentido do que uma aposta em algum tipo de non sense narrativo à lá Monthy Python. Tire as piadas e situações engraçadas e ainda sobra um filme que faz sentido. Infelizmente talvez não seja isso que as pessoas esperavam, o que pode prejudicar bastante a produção em termos de boca-a-boca e esvaziar as filas depois de sua estreia.

Porta dos Fundos: Contrato Vitalício Crítica

Mas de qualquer jeito, o humor está lá (assim como uma série de divertidas variações do tema do programa), e muito menos escorado pelas sketchs e situações e muito mais pelos personagens. Ninguém entra e sai da trama somente para provocar o riso frágil, todos que perambulam por ela, permanecem por lá e acumulam uma sensação de ridículo que vai crescendo a cada momento que entram em cena, facilitando o humor logo de cara na maior parte do tempo.

Duvivier vive seu diretor com uma insanidade divertidíssima, enquanto Antonio “Kibe Loco” Tabet rouba completamente a cena a cada momento que surge na tela. O resto do elenco ainda funciona bem, cada um dentro de sua loucura, o que facilita bastante o esforço do protagonista Fabio Porchat em ser o único personagem que beira a sanidade.

E talvez essa insanidade seja o melhor do filme, já que toda loucura cria um cenário que beira a falta de sentido e se acumula até momentos realmente impagáveis, como toda sequência envolvendo a leitura de roteiro e ainda boa parte das ridículas filmagens.

Mas sobre tudo isso, a direção de Ian SBF não empolga, ao mesmo tempo que a busca por essa trama concisa deixe de lado um punhado de piadas. Talvez Contrato Vitalício então tente ser maior do que realmente deveria tentar ser, talvez algo mais simples e mais “enlatado” nesse caso coubesse melhor como primeira tentativa do grupo de ganhar uma tela maior que a do computador.


“Contrato Vitalício” (Bra, 2016), escrito por Gabriel Esteves, Ian Sbf e Fábio Porchat, dirigido por Ian Sbf, com Fábio Porchat, Gregório Duvivivier, Jão Vicente de Castro, Luis Lobianco, Thati Lopes, Antonio Tabet, Gabriel Totor, Marcos Veras e Júlia Rabello.


Trailer – Porta dos Fundos: Contrato Vitalício