Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas | Excesso de Jack Sparrow afunda o filme


Éinteressante olhar para Piratas do Caribe ¿ Navegando em Águas Misteriosas, quarto filme da série (e tentativa da Disney de continuar lucrando com a marca, haja o que houver), e perceber que, muito provavelmente o que mais faça falta nele seja, justamente, o que mais parecia sobrar para ser aparado nos três últimos.

Ainda que, diante do sucesso do primeiro, forçosamente tenha se criado uma linha narrativa rocambolesca que resultou em duas sequencias muito menos interessantes, havia em tudo aquilo uma sensação de unidade, onde os acertos do primeiro ainda refletiam bons momentos, principalmente pelo sentimento de ainda estar diante da mesma história. Que em momento algum apostava no pirata Jack Sparrow como figura unicamente central.

Por mais que durante três filmes o público tenha aprendido a amar o pirata criado por Johnny Depp, isso se dava, justamente, por sua personalidade dúbia, seu humor cínico, seu andar atrapalhado, seu senso de sobrevivência que passava por cima de qualquer coisa e, principalmente, por não serem obrigados a ter nele um exemplo de herói clássico. Orlando Bloon, mesmo tendo ficado em segundo plano, era esse lado heroico clássico, com a dama em perigo, o passado bucaneiro e crescimento (junto com a personagem Keira Knightley) que se deu em três filmes.

Por incrível que pareça, Piratas do Caribe ¿ Navegando em Águas Misteriosas afunda por dar a Jack Sparrow o papel principal.

Nele, depois de um epílogo burocrático e sem graça, onde dois pescadores acham um velho com um mapa no meio do mar e isso desencadeia uma corrida em busca da misteriosa Fonte da Juventude entre a Espanha e a Inglaterra, com a última tendo no comando de sua embarcação o capitão Barbossa (Geoffrey Hush), o pirata Jack Sparrow, após negar ajuda aos ingleses, acaba então dando de cara com Angélica (Penélope Cruz), uma paixão de seu passado.

Entre fugas cheias de peripécias, e muitos duelos de espadas (que infelizmente não apresentam absolutamente nada de novo), Sparrow termina por ir parar na tripulação do temível Barba Negra (Ian McShane), que, coincidentemente, é pai de Angélica e também está à procura da Fonte da Juventude.

Com isso, o roteiro de Tedd Elliot e Terry Rossio (levemente baseados pelo livro homônimo de 1987, escrito por Tim Powers) pegam um atalho preguiçoso e, praticamente, reestruturam-no à imagem do primeiro, com dois navios indo em busca de um tesouro, Jack sendo ¿refém¿ de um deles (ao mesmo tempo em que, de jeito atrapalhado, parece ter toda situação sob seu controle) e, no fim das contas, enganando a todos e saindo por cima de todo mundo.

A diferença aqui é justamente aquela já citada. Sem com quem se identificar, o espectador é obrigado a torcer ou por um pirata sem perna e vingativo, que, por definição ficou durante três filmes sendo uma espécie de vilão (Barbossa) ou Jack, manipulador, socialmente incapaz, e que, ao primeiro sinal de perigo trai até a personagem que ele ¿desconfia ter sentimentos¿. Não que nada disso fuja da personalidade criada pelos três filmes anteriores, bem pelo contrário, mas em ausência de humanidade, na falta de alguém para torcer que não seja algum ardiloso (e cheio de estilo) pirata.

Pior ainda, na tentativa de criar uma suposta ¿história de amor¿ saca um religioso e uma sereia para tentarem ocupar esse espaço, resultando em algo totalmente forçado e quase sem sentido, já que momentos antes de um certo ¿amor à primeira vista¿ toda e qualquer sereia é retratada como uma espécie de monstro marítimo que não pestaneja antes de seduzir sua vítima e trucidá-la. Ainda que esse relacionamento tenha que existir, pois em certo momento é ele que possibilita que uma das barreiras da trama seja transposta (e sem ela a presença das sereias poderia até ser descartada), a função do personagem (ele) até esse momento é tão nula que é difícil até achá-lo na multidão. O que faz ser mais difícil ainda comprar a ideia por inteiro.

E tudo isso talvez seja o resultado, não da escolha errada, mas da presença do mesmo Rob Marshall de Nine e não aquele de Chicago. Se desde o começo a escolha do diretor para dar rumo a série depois da saída de Gore Verbinski (que foi fazer o extraordinário Rango), havia uma esperança de que o filme até ganhasse em questões visuais e ritmo, infelizmente, Marshall comete o mesmo erro de seu último filme (Nine), uma espécie de burocratização tanto de suas imagens quanto do material narrativo em geral.

Não há um momento sequer (mesmo com o 3D) que o espectador vá olhar para aquela tela e sofrer algum impacto visual (coisa que sobrou nos três últimos, mesmo nos momentos mais fracos). Talvez tenha faltado a Marshall até a coragem de desconstruir o material e o gênero (como ele fez em Chicago) ao invés de tentar de se manter em um ritmo que não
Cenas do Filme Piratas do Caribe Navegando em Aguas Misteriosasera o dele. Suas sequencias de ação são, em suma maioria, um pouco inocentes e infantilmente divertidas, ficando em segundo plano quando comparadas às dos filmes subsequentes, o que, no final das contas, cria até um filme divertido e agitado (pontual demais é verdade), mas que não empolga. Que não permite que seus espectadores saiam do cinema empolgados por uma próxima continuação (o que dessa vez deve demorar um pouco para acontecer, mesmo com a sequencia depois dos créditos já dando uma deixa).

Piratas do Caribe ¿ Navegando em Águas Misteriosas, pelo menos, conta com uma direção de arte suntuosa de John Myhre (que já levou dois Oscars, justamente, por trabalhos com Marshall), que não economiza com todos esses novos piratas, zumbis e navios, mas não parece ainda ser totalmente aproveitada tanto pelo roteiro quanto pelo diretor que optam pelas palavra do próprio Capitão Jack Sparrow quando diz que ¿o que vale não é a jornada, é o destino¿, acabando então por permitir que, a grande maioria do filme possa até ser cansativa e arrastada, contanto que o final seja um ponto à ser lembrado, mesmo que o mais divertido da série sempre tenha sido navegar por ¿essas águas misteriosas¿ e não chegar em terra firme.

confira o trailer de Piratas do Caribe -Navegando em Águas Misteriosas


Pirates of the Caribean: On Stranger Tides (EUA, 2011), escrito Ted Elliott e Terry Rossio, dirigido por Rob Marshall, com Johnny Depp, Penélope Cruz, Geoffrey Rush e Ian McShane