Peter Pan | Terra do Nunca ganha seu “Pan Begins”

Há algo de mágico na direção de arte de Peter Pan, uma versão Live Action contando uma história estilo “Origins” do menino que não quer crescer. Navios voadores, sereias deslumbrantes, fadas minúsculas e brilhantes: tudo parece reluzir e impressionar no filme em uma versão grandiosa que consegue com sucesso flertar com detalhes do desenho original que o fez ser um sucesso (a fonte original mesmo remonta do começo do século passado, uma peça e um romance do escritor J. M. Barrie). Porém, por outro lado, um filme que se mantém próximo demais da cartilha de aventuras padrão para conseguir impressionar os espectadores mais atentos, se tornando inevitavelmente previsível, e por isso, tristemente enfadonho em sua estrutura narrativa.

A época é algo semelhante à Segunda Guerra, e o local é a Inglaterra, constantemente bombardeada por aviões inimigos. Em um orfanato, crianças são mantidas em condições deploráveis enquanto sua governanta estoca guloseimas. A amizade entre Peter, o garoto que vemos ser abandonado por uma cautelosa mãe, e um outro garoto sempre com ele, parece ser o gancho que une início e fim.

E não só esse, mas há vários outros “ganchos” na história (trocadilho intencional), pois é necessário forçar relações com o universo futuro da Terra do Nunca. Do contrário, seria apenas mais uma aventura genérica de fantasia (o que é). Por isso temos Gancho, o pirata que se tornará seu arqui-inimigo, só que em vez de referenciar seu futuro — exceto em pequenas frases e gestos óbvios, como seu receio por crocodilos – “Hook” é um herói genérico de ação, e seu chapéu de Indiana Jones ajuda mais a descaracterizá-lo do que sugerir algum tipo de personalidade.

De maneira semelhante o filme apresenta Tigrinha e “Smiegel”, ou Barrica, embutidos em um mundo onde há um pirata malvado (Barba Negra). Há a busca pelo pó de fada por trabalho escravo, e há selvagens e todo o resto: tudo embalado com efeitos deslumbrantes e com o uso das cores que diferencia muito bem as características de cada lugar — mata, caverna, deserto — mas ao mesmo tempo soa igualmente genérico.

A maior virtude desse novo Peter Pan parece residir em atuações bem-humoradas ou igualmente competentes. Ainda assim, Gancho e Tigrinha (respectivamente interpretados pelo desinteressante Garrett Hedlund e por uma curiosa Rooney Mara) são decepções por não oferecerem nada além do óbvio. Ele é o aventureiro, só se preocupa consigo mesmo, mas as circunstâncias o leva a ajudar o garoto, etc. Ela é a nativa, já vista em Avatar, diferente, mas linda, vira motivo amoroso de Gancho etc..

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Já Barrica e Barba Negra conseguem florear a parte Live Action sem soarem excessivamente caricatos. Enquanto o primeiro, um Adeel Akhtar escolhido a dedo para o papel, consegue convencer de maneira eficiente sua mescla de ingênuo com malícia conveniente – e o seu andar é digno de aplausos pela verossimilhança com o desenho em um momento em que o vemos de cima – o segundo, interpretado por um Hugh Jackman absolutamente irreconhecível, consegue usar seu estereótipo de vilão maluco para entreter com uma hilária combinação entre seus acessos de raiva e seus modos polidos, como quando ele lê as duas únicas regras da Terra do Nunca, tão curtas que poderiam ser escritas na orelha de um porco (algo que ele de fato faz!). Ou na sua indignação em observar que Peter não está na mesma página sobre a existência de uma chave para um mundo secreto.

Por fim, Peter Pan, encarnado pelo jovem Levi Miller, abraça seu destino de escolhido (e alguém realmente duvida em algum momento que ele seja?) de uma maneira divertidamente mista entre idealismo, bravura e perspicácia. Ainda assim, ele soa muitas vezes excessivamente melodramático e precisa ser salvo na hora H tantas vezes e de uma maneira tão arquetípica que não nos importamos mais lá pela terceira vez, já no ápice da aventura enlatada.

A boa e a má notícia é que Peter Pan continua fiel à sua história. Talvez tão fiel que se esqueceu de ousar o suficiente para não parecer apenas mais um reboot de uma franquia desgastada. Atualizações desse tipo vendem ingressos 3D e fisgam o adulto desatento que enxergou no trailer um drama épico, e descobriu que histórias infantis, no mundo comercial com censura PG em que os mortos viram fumaças coloridas, continuam infantis para sempre.


“Pan” (EUA/RU/Aus, 2015), escrito por Jason Fuchs, à partir da obra de J.M. Barrie, dirigido por Joe Wright com Hugh Jackman, Levi Miller, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Adeel Akhtar, Amanda Seyfried e Cara Delevigne


Trailer – Peter Pan

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