Pelé | Se perde tentando quebrar seu próprio personagem


Muita gente aponta que qualquer tese está fadada ao fracasso quando nasce com a convicção de um resultado. Quando isso acontece, o pesquisador simplesmente pode cair da tentação de manipular as ações de sua pesquisa para atingir aquele alvo. Pelé, novo documentário da Netflix, é uma tese que já nasce com o resultado pré-determinado.

A intenção dos diretores ingleses Ben Nicholas e David Tryhorn é acompanhar a carreira do “Rei do Futebol”, mas quanto mais o filme passa, mais fica claro o ritmo acelerado dessa montagem de imagens de arquivo, declarações de amigos e até uma entrevista com o próprio Pelé. A dupla quer chegar não no Pelé invencível, mas sim na figura cheia de falhas.

De cara o esforço estético é tão grande que o personagem principal entra em cena com um andador antes de sentar em uma cadeira para dar a entrevista. O que parece uma opção para humanizar a figura, logo se transforma em mais um detalhe dentro desse esforço de mostrar essa outra face de Pelé. Não que seja uma face desconhecida para nós brasileiros (o Romário que o diga quando apontou a “poesia do Pelé calado”), mas talvez para o resto do mundo, isso ainda seja uma novidade.

Diferentemente do Pelé Eterno de 2004, dirigido pelo Anibal Massaíni Neto, esse novo documentário não é feito pensando nos brasileiros, mas sim no resto do mundo. É uma tentativa clara de mostrar, tanto o gênio com quatro Copas do Mundo no currículo e três “canecos”, quanto o (perigosamente) símbolo de uma alienação sistemática que colocou o Brasil em três décadas de ditadura.

Quem melhor resume essa figura durante o filme é o “Pelé representa a alegria de um Brasil triste” dito por Gilberto Gil. É nisso que o filme poderia estar interessado, encontrar nesse Pelé “que nunca foi um obstáculo para o governo dos militares” o poder dele como símbolo. Em outro momento o jornalista Juca Kfouri aponta o quanto “Pelé e o futebol certificavam o Brasil para o mundo”, mas, ao mesmo tempo, entende o quanto o amigo nunca foi um símbolo que poderia ter sido. Mas o documentário resolver não tomar esse caminho complexo, prefere simplificar.

O futebol está lá, o monte de imagens de arquivo e os gols, mas Pelé é sobre mais que isso. Tanto parece entediado nesses momentos, que se permite deixar as declarações de seu protagonista e de outros jogadores narrarem esses momentos explicando o que sentiram na hora, o que beira o brega. O que Ben Nicholas e David Tryhorn querem é ver um pouquinho do Pelé metendo os pés pelas mãos quando fala de Ditadura. E isso eles conseguem.

A imagem com que o jogador sai desse filme é de alguém que preferiu ignorar o que estava acontecendo enquanto pensava em seus objetivos e no futebol. Quando indagado sobre o quanto a Ditadura influenciou aquele momento, a resposta “para mim não mudou nada” é entrecortada com as cenas de violência policial contra civis nas ruas do Brasil durante os anos 60.

Por mais que o objetivo inicial da dupla de diretores acabe sendo alcançado, a impressão final é de uma manipulação pouco sutil. É óbvio que eles não estão inventando nada daquilo, mas ao mesmo tempo, realmente ninguém nunca vai saber a diferença que um posicionamento de Pelé teria significado para o a luta contra o regime militar. Mas o problema talvez seja maior, já que não é difícil imaginar que se tivesse havido um posicionamento, ele fosse muito mais perto do “lado de lá”. Portanto, talvez fosse até melhor que ele tivesse permanecido calado, como ficou.

Por sorte de quem estiver conhecendo o Pelé através desse documentário, seu lado gênio do futebol é muito maior do que o de seus “tropeços políticos”. Ver as quatro Copas e ainda um tiquinho de sua carreira no Santos é sempre um poderoso remédio contra um futebol menos inspirado de muito time atual. O documentário também sabe disso, então trata cada uma das Copas como uma jornada bem específica dentro da carreira do jogador. Os altos e baixos de cada momento criam uma montanha-russa de emoções interessante enquanto observam a capacidade descomunal de Pelé de fazer o inimaginável dentro das quatro linhas.

Pelé, esse novo documentário da Netflix, só não vai mais alto, pois está muito interessado em provar esse ponto de vista de um Pelé que, convenientemente, se permitiu ser “só um jogador”. Perde um pouco da oportunidade de mostrar ainda mais as glórias dele (algo que o Pelé Eterno faz melhor). Mas mesmo assim, com essa ideia fixa, consegue mostrar o quanto Pelé foi um símbolo. Mostrar o quanto ele foi um gigante para o futebol e para o Brasil, mas também lembra a todos que ele preferiu não ser um gigante contra um regime violento e opressor, diante disso, preferiu se apequenar.


“Pelé” (UK, 2021); dirigido por Ben Nicholas e David Tryhorn


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