Pela Janela | O Tempo cura, mas também adoece

Pela Janela Filme

Pela Janela é um pequeno retrato de uma realidade que bate pesado no começo e que aos poucos vai nos alimentando de uma esperança no vazio, na lembrança, na memória. O ser humano é uma coisa curiosa. Sua vida certinha e ajeitada por décadas pode desabar a qualquer instante. Seu chão pode ruir. E mesmo assim, o tempo parece magicamente curar tudo.

Este é um filme simples e familiar que consegue abordar vários temas. Familiar para quem conhece o Brasil, São Paulo, Buenos Aires. Uma co-produção Brasil/Argentina traz aqui Magali Biff em um papel “terrível de bom”. Ela extrai uma personagem do cotidiano e some no processo. Vemos apenas a “trabalhadeira” Rosália, já idosa, calejada, mas que não arreda o pé do serviço. Ela trabalha em casa e no seu emprego. Há trinta anos na mesma fábrica de reatores da periferia, percebemos apenas acompanhando sua rotina que ela já conhece tudo sobre o processo e cuida de tudo por ali com um zelo atento, mas inconsciente. Ela chega em sua dupla jornada em casa, lava as roupas, as guarda e faz a janta para o irmão. Ela acorda cedo e é a inspiração em pessoa sem dizer uma palavra.

No dia seguinte é demitida. Uma fusão entre duas fábricas a torna dispensável por excesso de contingente e ela é rapidamente substituída por um supervisor mais jovem. O seu mundo cai. Seu irmão, de viagem marcada para o dia seguinte para entregar um carro de seu patrão em Buenos Aires, a leva para não deixá-la sozinha. E tem início um road movie humilde, ligado às raízes culturais do brasileiro, suas estradas, seus hotéis, seu modo de ver a vida. Seu irmão, José, é esta pessoa. E Rosália se torna a itinerante em um processo de resgate de sua humanidade. Podemos analisar sua história como sua desumanização gradual, por trinta anos, que a tornou um robô dependente do seu emprego. Quando foi retirado desse muito eficiente robô sua função primordial de existência, é algo equivalente à morte.

E é por isso que o momento mais poderoso do longa é justamente em seu meio, quando vemos Rosália sendo “banhada” pelos milhões de gotículas em suspensão das gigantescas e imponentes Cataratas do Iguaçu. Este renascimento é desenvolvido de uma maneira casual, itinerante mesmo, mas se torna poderosa aos poucos, que é a melhor forma de marcar na memória do espectador os acontecimentos primais que irão fazer parte da constituição desse novo humano.

Pela Janela Crítica

A diretora estreante em longas Caroline Leone (vindo da montagem) realiza um trabalho pautado em câmeras na mão e enquadramentos de gente curiosa, que olha para Rosália como que espiando sua vida e suas reações ao que está vivendo nesses dias. Minha tomada preferida é quando a câmera se coloca no banco de trás do carro, entre ela e a porta. Outra virtude de Caroline, que também escreve o roteiro, é evitar diálogos expositivos por completo. O que vemos são os sentimentos de Rosália se transformando pela sua expressão, seus gestos, seu canto. Sua transformação é gradual, assim como deve ter sido sua robotização.

Esse olhar curioso de Leone extrai do cotidiano os detalhes mais pitorescos, como o desenho dos azulejos do tanque onde Rosália lava sua roupa, ou a leiteira amassada onde esquenta a água que irá jogar sobre o café filtrado. Quando estão em Buenos Aires, a câmera não acompanha apenas irmão e irmã, mas dá voltas pelos corredores e janelas do hostel onde se hospedam. A imersão dos personagens em uma realidade tão pé no chão os dá identidade, autenticidade. Além de ser um filme do seu tempo.

E Pela Janela é também um filme sobre o tempo. O tempo que pode curar, assim como adoecer. Ele não se preocupa em concluir com todas as letras sua história, mas no fundo da alma sabemos que ela se encerra quando se deve. Sem nenhuma palavra que expõe seus personagens desnecessariamente, basta o olhar sereno de quem nunca foi de falar muito para entendermos seus sentimentos. Magali Biff mereceria uma indicação ao Oscar por este papel.


“Pela Janela” (Bra, 2017), escrito e dirigido por Caroline Leone, com Mayara Constantino, Cacá Amaral, Magali Biff


Trailer – Pela Janela

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