Parentes | Uma viagem com humor e drama


Parentes pode ser uma comédia ou um drama. É difícil escolher. E essa é uma das virtudes do filme. Ao mesmo tempo que rimos da desgraça que é esse pai carente e que se aproveita de um tumor no cérebro para levar a família em uma “поездка” (a famosa “roadtrip”) pelo país. E isso faz com que nos compadecemos de sua falta de talento em tudo. Ele é a geração que fracassou grandemente em sua família. E seu pai e seu filho são a geração que deu certo.

A desgraça não é o tumor, mas sua medíocre existência.

E quantos de nós não somos assim. Tenho certeza que você já deve ter se sentido assim em algum momento da sua insignificante vida. Eu já. Todos nós já tivemos essa dúvida se merecemos respirar no planeta e apreciar um novo dia mesmo com tantas falhas de caráter. As pessoas em volta parecem tão melhores. Elas fingem tão bem.

Eis a raiz dessa comédia. A estranheza em torno desse patriarca e suas decisões completamente desbaratinadas acerca de seu filho, sua nora, sua esposa, sua filha, seu pai. Esse cara não acerta uma. Acertaria mais se ficasse calado. Mas ele não pode, agora que tem apenas um ano de vida. Antes sim, ele poderia viver como sempre reclamando do governo e dos outros em paz. Agora não há jeito. Ele irá dessa pra melhor e deseja deixar sua marca, nem que seja cantando em um festival que só viu quando criança.

Há muitos momentos divertidos em Parentes, que fazem rir com aquele tom de estranheza no fundo. Nos faz pensar se deveríamos rir de um soldado paraplégico sendo atropelado. No final dessa cena descobrimos que sim, mas o filme quer atingir nosso âmago até lá, e junto um drama familiar escancarado, em plena rua, para todos verem. Quer que nos sintamos estranhos e ruins por rir disso. A sensação é muito boa. É um humor que transcende algumas regrinhas básicas de roteiro. Seu caos interno dá sensação de ser um trash, mas no final percebemos que há uma estrutura bonitinha por trás da história.

Este é também um filmes sobre família, e há lindos momentos de harmonia entre parentes, que se tornam mais lindos justamente por causa dos momentos de vergonha alheia logo atrás. Então entendemos a odisseia do medíocre. Tudo faz sentido no final, mas é difícil chegar até lá.

Muitas piadas estão soltas que soam boas ideias no papel e são filmadas sem pensar no todo. Roubar pães ou repintar a lápide da mãe não são detalhes que se encaixam na história, mas por isso mesmo ela acaba ganhando uma aura mais realista, menos esquemático de um roteiro onde nada sobra ou falta. Por não ser muito esperto o filme acaba ganhando dimensão. Que surpresa o diretor deve ter tido ao assistir o resultado.


The Relatives” (Rus, 2021), escrito por Aleksey Kazakov e Zhora Kryzhovnikov, dirigido por Ilya Aksyonov, com Sergey Burunov, Irina Pegova, Sergey Shakurov, Semyon Treskunov, Liza Monetochka , Nikita Pavlenko, Katerina Bekker.


O FILME FAZ PARTE DA COBERTURA DO 2° FESTIVAL DE CINEMA RUSSO

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