Parasita | Do tragicômico ao só trágico mesmo

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Que delícia que é presenciar um cineasta brilhante em total controle de sua arte. Seja em um clássico conto de detetive que ele transforma em pura genialidade (Memórias de um Assassino), seja em um tenso e criativo filme de monstro (O Hospedeiro), seja em uma complexa alegoria social (Expresso do Amanhã), o sul-coreano Bong Joon Ho mais do que já provou ser um dos melhores cineastas da atualidade. Isso é reforçado por Parasita, longa que começa tragicômico para mergulhar de cabeça no mais completo caos sem que o diretor jamais perca foco do que quer fazer e contar.

Com roteiro também assinado por Bong ao lado de Jin Won Han (que, anteriormente, foi seu assistente de direção em Okja), Parasita acompanha a família Kim: o pai, Ki-taek (Song Kang-ho); a mãe, Chung-sook (Jang Hye-jin); a filha, Ki-jung (Park So-dam); e o filho, Ki-woo (Choi Woo-sik). Morando no miserável e nada confortável porão de um prédio caindo aos pedaços em uma região pobre da cidade, eles se viram como podem para sobreviver — o que inclui passar horas montando caixas para uma pizzaria para receber alguns trocados e deixar a janela aberta enquanto a rua é fumigada: “Dedetização de graça!”, exclama o pai.

Até que um amigo de Ki-woo, prestes a partir para o exterior, pede que este o substitua como professor de inglês da estudante rica para quem dá aulas particulares. Inicialmente hesitante, Ki-woo topa o trabalho na casa da abastada família Park — e logo, devido a uma série de oportunidades às quais os Kim se jogam com tudo e, por meio de estratégias questionáveis mas bastante fascinantes e ocultando suas relações de sangue, toda a família passa a trabalhar para os Park.

Depois de iniciar leve e divertido graças à engenhosidade dos Kim na aplicação de seus pequenos golpes — é impossível não simpatizar com eles e com suas circunstâncias —, Parasita acerta também ao construir os Park com o mesmo grau de empatia e longe da caricatura. Os pais, o bem-sucedido empresário Dong-ik (Lee Sun-kyun) e a dona de casa Yeon-kyo (Jo Yeo-jeong), claramente amam um ao outro e aos filhos, a quem buscam dar o melhor — ainda que esse melhor seja por um viés de puro egocentrismo e falta de noção, quando Yeon-kyo concorda que seu filho mais novo precisa voltar a ter aulas de artes por que o pequeno é como “um jovem Basquiat”.

A partir de seu segundo ato, porém, Parasita entrega-se a uma série de reviravoltas intensas que dão novo significado a tudo o que havíamos visto até então — e, por mais caótico que tudo pareça se tornar, é impressionante perceber como tudo se encaixa perfeitamente (perceba, por exemplo, a breve afirmação do Sr. Park de que o único defeito da governanta Moon-gwang é seu ávido apetite). Com isso, Dong-ik e Yeon-kyo também começam a revelar seus traços mais podres, como o ódio pelo “cheiro de gente que anda de metrô”.

O que temos aqui, portanto, é um retrato da desigualdade de classes tão forte quanto aquele visto em Expresso do Amanhã, que escancara o absurdo de uns perderem tudo por causa de uma chuva torrencial enquanto outros podem celebrar a leveza do ar depois que ela vai embora. O desenrolar de Parasita realmente muda tudo — incluindo seu título, que definitivamente não se refere à família Kim.


“Gisaengchung” (Cor, 2019), escrito por Bong Joon Ho e Jin Won Han, dirigido por Bong Joon Ho, com Song Kang-ho, Park So-dam, Choi Woo-sik, Jang Hye-jin, Jo Yeo-jeong, Lee Sun-kyun, Jung Ji-so, Jung Hyun-jun e Lee Jeong-eun.




Trailer do Filme – Parasita

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