Paraíso | Filme russo expõe nazismo imerso na invisibilidade

Paraíso Filme

Paraíso poderia de uma maneira peculiar fazer sessão dupla com A Fita Branca. Enquanto o trabalho de Michael Haneke explora em boa parte do tempo o que tornou uma nação propensa a cometer os horrores que seriam cometidos na Segunda Guerra, este trabalho russo/alemão do diretor Andrey Konchalovskiy já está imerso nesta situação. Vemos as pessoas executando e racionalizando suas tarefas da melhor maneira possível, mesmo que sua tarefa seja quebrar os joelhos de alguém tentando salvar duas crianças ou queimar o maior número de judeus na câmara de gás. Por trás das máscaras sociais dessa época Konchalovskiy conta uma história fascinante de terror através do ultrarrealismo.

Acompanhamos três personagens icônicos. Um policial francês que trabalha em comunhão com os nazistas em uma França sob controle alemão; uma aristocrata russa que aprende a subverter sua moral e viver como uma prisioneira comum e comumente abusada por todos; e um alemão de alto-escalão militar que representa em carne e osso o ideal que os intelectuais alemães construíram à época, muitos influenciados pelo trabalho de Friedrick Nietzsche (no começo, ao citar seus descendentes, ele comenta de um tio-avô primo do filósofo). Vemos os três em seu dia-a-dia durante a guerra ao mesmo tempo que os vemos em uma espécie de entrevista, filmados com os recursos da época, que expõem seus pensamentos durante aqueles momentos.

As filmagens em si emulam as condições do cinema na época, com uma resolução de tela quadrada, P&B e com um defeito ou outro na montagem (por exemplo, aquele clarão de final de rolo). Tudo isso facilita nossa identificação com a época, embora o resultado seja estilizado demais, até com os tons de preto e branco puros e cristalinos, como se magicamente restaurados. O uso desse artifício acaba tornando o resultado belíssimo e poético, o que flerta perigosamente em associar beleza com as atrocidades narradas (o que acaba, talvez inadvertidamente, ou a glorificar a violência, ou a justificá-la, ou, a melhor resposta, chocar ao escancarar beleza onde ela não é bem-vinda).

Os personagens estão todos conectados, mas o roteiro não se preocupa em estabelecer essas conexões como um argumento-chave. De certa forma, não há de fato comunicação entre essas três pessoas, mesmo que elas interajam. Isso é representado tanto no modelo das entrevistas, onde a vemos de fato (mas sozinhas) quanto na camada burocrática de cada um deles, desempenhando seu papel de algoz ou vítima da melhor maneira possível. Quando chegamos nos planos nazistas, a sensação de um povo que hoje se orgulha por sua eficiência coletiva se transforma na máquina mais eficiente de genocídio da história, perdendo apenas para os milhões mortos de fome nos regimes comunistas da China e da Ucrânia, este último por uma pequena “falha” na infalível organização central.

Paraíso Crítica

Aliás, o comunismo, em determinado momento, também é conectado através do intelectual nazista, que comenta como é fã dos bolcheviques por acreditarem em uma causa e lutarem por ela, e aponta ainda que se tivesse nascido na Rússia em vez da Alemanha, provavelmente seria comunista. “Deus não permita que um dia a Alemanha vire comunista. Sua eficiência poderá ser ainda maior no genocídio arquitetado” completa.

O filme de Konchalovskiy deixa muito claro que a cultura do perfeccionismo alemão naquela época servia até mesmo para que cidadãos do mesmo país se virassem uns contra os outros.

É difícil saber quem atua melhor, já que tanto o policial quanto o militar abraçam suas vidas (e de suas famílias, presente e passada) de uma forma tão incondicional que se trata quase de uma caricatura, mas não chega a ser por conta da atuação sincera (e aterrorizante) de Philippe Duquesne e Christian Clauss. Por outro lado o policial é alguém que escolhe um lado baseado na vantagem e chances de sobrevivência, enquanto o militar e a aristocrata russa (Olga, seu nome) estão dispostos a morrer em sacrifício. Os seus diferentes motivos você pode julgar, mas não a pureza de seus ideais.

E por falar em ideais, é Olga que carrega a chave da moral, mas a repassa ao oficial alemão, que aos poucos vai percebendo que ele faz parte do maquinário que está construindo não o paraíso na Terra, mas o inferno. A interpretação de Yuliya Vysotskaya é arrebatadora do começo ao fim. Perfazendo no começo alguém que já aprendeu rapidamente como emular o que os oficiais alemães desejam, ela revela na entrevista que acha insuportável o medo, e que a todo momento ela apenas blefa na esperança que a deixem em paz. O resultado disso é que compreendemos mais pra frente suas reações quando no campo de concentração. É uma visão multifacetada que passaria despercebido se não fosse pela estrutura narrativa do filme em explicitar o real pensamento das pessoas envolvidas.

Paraíso é um filme forte o suficiente para fazer sessão dupla com o filme de Haneke, mas que em seu final amolece o suficiente para deixar aquele gostinho de A Lista de Schindler (o que no caso não é uma coisa boa, tamanha a ambição narrativa do resto do filme). Porém, mesmo saindo da sala com a sensação de que poderia ser melhor, alguns momentos dele com certeza irão assombrar por um bom tempo os espíritos mais sensíveis. Não é um tema fácil de lidar e Konchalovskiy, como todo bom russo, o torna ainda mais deliciosamente insuportável.


“Ray” (Russia/Germany, 2016), escrito por Elena Kiseleva e Andrey Konchalovskiy, dirigido por Andrey Konchalovskiy, com Yuliya Vysotskaya, Philippe Duquesne, Viktor Sukhorukov, Peter Kurth, Jean Denis Römer


Trailer – Paraíso

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