Pânico 4

Talvez não pareça, mas lá se vão quinze anos desde que Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson (que na época era famoso por sua série adolescente Dawson´s Creek) lançaram o primeiro Pânico e (sem medo de exagerar) mudaram os rumos, descendentes, que o gênero parecia tomar. E se, entre 1996 e o ano 2000, essa parceria resultou em mais duas sequências, somente hoje, onze anos depois do último, é que se pode afirmar que a serie ganhou uma continuação a altura.

Mas Pânico 4 acaba sendo uma surpresa agradável, justamente por que, dado todo esse tempo que passou para Craven e Williamson, seria muito mais fácil acreditar que viesse mais uma bomba (ou ninguém se lembra que os dois foram os culpados pelo horroroso Amaldiçoados!). O mais engraçado disso é que, como a própria protagonista vivida mais uma vez por Neve Campbell (que também não teve muito sorte longe da faca do Ghosthface) diz, no final desse novo filme, “Não mexam com o original!”, e é justamente isso que a dupla de realizadores faz.

Se lá atrás, Pânico ganhou o público diante dessa crítica inteligente que brincava com o próprio gênero e mostrava o quanto ele parecia engessado e esquemático a cada continuação que ganhava vida, hoje Pânico 4 faz o mesmo, só que com a sensibilidade de perceber que ele próprio (a série) se tornou um pastiche exagerado daquilo que mais se divertiu esfregando na cara de seus espectadores. Diante disso, Craven tem como única opção, mais uma vez, dá risada de si próprio e arruma mais um monte de jeitos de surpreender todo aquele público no escuro do cinema. E consegue.

Pânico 4 desafia seu público a adivinhar quem é o assassino, de onde ele vem e por que ele está fazendo isso, como um bom filme slasher deve ser, afundando e divertindo o espectador naquela poltrona, que acaba sendo presenteado com um monte de surpresas e um ótimo filme de terror. Um bom e simples filme de terror.

Nele, Woodsboro agora entrou mais ainda no mapa como a cidade onde ocorreu o massacre do primeiro filme, e que deu origem a série de sucesso Stab, que, todo esse tempo depois, já chega aos cinemas em sua sexta continuação (Stab 7). Enquanto isso, os três “sobreviventes” dele continuam vivendo suas vidas. Sidney Prescott (Campbell), depois de ter conseguido superar tudo, agora lança um livro sobre esse período, enquanto o Xerife Dewey e a agora ex-jornalista, Gale Weather (David Arquette e Courtney Cox) vivem uma vida de casados, mas uma nova série de assassinatos, bem na época de aniversário do acontecimento, acaba colocando em risco, não só a vida dos três, como a da prima (Emma Roberts) de Sidney e seus amigos.

Como fica claro, Williamson, não faz absolutamente nada de novo, mas o faz com uma propriedade tão grande que deixa impossível não apreciar esse belo roteiro. A sequência inicial está lá, onde duas beldades e um pacote de pipocas parecem a espera de da morte certa, mas, de modo tremendamente habilidoso vai, com certeza, enganar todos no cinema, e é isso que qualquer um que pagou o ingresso mais quer: ser enganado e surpreendido.

Todo resto daquela estrutura batida continua lá, uma número enorme de suspeitos, sustos, vultos e vítimas em potencial (na verdade elas e os suspeitos acabam sendo as mesmas pessoas), tudo isso embrulhado (como no primeiro) com um cinismo e um bom humor suficientes para, discutir, tirar sarro, e mostrar para seu público o quanto o gênero, mais uma vez, se encontra em uma crise de identidade descendente.

Em um certo momento “What´s your favorite scary movie” pelo telefone, uma das personagens é levada a citar um monte de remakes, e a lista parece não acabar em sua boca, assim como é obrigado a conviver com regras que o gênero impôs nos últimos anos como da “inversão sendo o novo original”, o que permite aos filmes saltarem sobre buracos narrativos que não parecem fazer questão nenhuma de serem preenchidos. Williamson tem consciência de tudo isso, e esfrega isso na cara de seus espectadores, sem o mínimo pudor de dar risada de tudo e todos.

A grande sacada de ambos (Craven e Williamson) é costurar isso de modo hábil, ainda mais quando a genialidade do diretor parece dar mais um fruto. Nada é perdido, nem um só momento de filme se presta a não estar lá para desenvolver, preparar ou deixar aquela dica, aquela isca de algo que possa (e vai) ser usado mais tarde. Ou alguém ousa dizer que não ficou na ponta da poltrona do cinema vendo a iminente preparação do ataque a uma vizinha da sobrinha de Sidney.

É esse controle que permite que tudo possa ser usado a favor do filme, de sua história, e mesmo que em certo momento a dupla possa até exagerar e criar um filme onde todos possam ser culpados, muito embora, enquanto a contagem de corpos cresce, o número de suspeitos não diminui, e a diversão só aumenta. Portanto, boa diversão.

Veja aqui o trailer do filme Pânico 4


Scream 4 (EUA, 2011), escrito por Kevin Williamson, dirigido por Wes Craven, com Neve Campbell, Courtney Cox, David Arquette Emma Roberts, Hayden Panettiere, Adam Brody, Anthony Anderson, Rory Culkin, Marley Shelton e Erik Knudsen.