Pai em Dobro | Um desastre


Não existe desculpas para Pai em Dobro. Absolutamente nada no filme funciona, mas nem de perto pode ser uma escolha, público alvo ou qualquer outra tentativa de “passar o pano” nessa ruindade toda.

A produção é mais uma tentativa da Netflix de emplacar uma comédia popular brasileira daquelas que enchem os cinemas de público. Em vão, já que é improvável que Pai em Dobro sobreviva mais do que algumas semanas nos destaques do serviço de streaming pelo mundo graças a um algoritmo amigo.

Essa ideia de “emplacar uma comédia” é clara, Pai em Dobro é dirigido por Cris D´Amato, que já tinha assinado recentemente coisas como É Fada!, Sai de Baixo: O Filme e Os Parças 2. Na ponta do elenco, Maisa surge como uma das maiores contratadas da Netflix e a cara de Eduardo Moscovis e Marcelo Médici no cartaz dão o pouco de credibilidade que o filme gostaria de ter.

Mas nada funciona.

No filme, Maisa vive Vicenza, aniversariante de 18 anos vivendo em uma espécie de comunidade ligada a algum tipo de pensamento livre e colorido. Seria uma indelicadeza e preconceito aponta-la como uma “comunidade hippie”, já que as únicas pessoas que não levam a ideia do filme à sério são os roteiristas. Tudo parece uma piada que transpira esse estereótipo pouco criativo.

Vicenza vive com suas roupas coloridas em meio a umas casas de madeira onde todo mundo é feliz e anda pulando nesse gramado verde, mas ela tem um desgosto: quer descobrir quem é seu pai. Para isso, pega sua bicicleta e parte em direção ao Rio de Janeiro, onde descobre que sua mãe passou um carnaval 18 anos atrás e teve um relacionamento com Paco (Eduardo Moscovis).

Como o título já diz, ela acaba descobrindo que sua mãe também teve um namorico com Giovanne (Marcelo Médici), ex-melhor amigo de Paco. E isso faz com que ela procure os dois e se meta em algumas enrascadas enquanto precisa impedir que ambos se trombem.

O desastre começa a ser escrito logo no começo, já que Vincenza não consegue desenhar o próprio olhar em autorretrato, pois não conhece os pais, o que soa como uma péssima lição, já que ninguém deveria depender de dois desconhecidos que nunca viu para que conseguisse se entender. E estando todos em um mundo puxado pelas amarras do machismo, isso fica ainda mais irritante.

E se esse crítico sem lugar de fala ficou irritado com isso, imaginem as mulheres que derem de cara com essa total falta de empatia com o seu público feminino.

Os que conseguirem ignoras essa primeira premissa tosca, talvez não consigam lidar com o modo horrível, mal-educado e possessivo com que todos pais de Vincenza a tratam. Os únicos conflitos imaginados pelo roteiro passam por criar personificações canalhas desses personagens e atitudes sem o menor carinho com a filha. Enfim, péssimos personagens dentro de um filme ainda menos interessante.

Esse desinteresse ainda surge cada vez que alguém abre a boca no filme. Absolutamente nenhum diálogo parece ter ritmo algum, assim como não têm medo nenhum de observarem o óbvio da situação em forma de palavras. Ou pior, assumem a completa falta de controle quando o terceiro ato é disparado através da fala de uma personagem que entra em cena e conta uma das histórias mais vagabundas e convenientes que o cinema verá em 2021. Tentando fugir dos spoilers, é como se, ao invés de preparar a cena, construir a situação e mostrar o estrago, o roteiro simplesmente decidisse colocar todo dinheiro da banda dentro de um carro de som e botasse fogo nele sem nenhum preparo narrativo… me desculpem, tentei fugir, mas a cena é muito ruim e merece ser comentada.

Falando em problemas, Maisa está na ponta desse iceberg. A atriz parece não ter diálogos suficientes para que sua presença faça sentido naquele lugar, então, por várias vezes, a troca de câmera entre os personagens em um diálogo apenas olha para a protagonista em uma reação sem sentido e silenciosa. Das duas uma, ou os roteiristas realmente não escreveram nada para ela, ou coisa pior, mas não sou eu que vou “dizer isso em voz alta” e provocar os fãs da ex-estrela da novela Carrossel e arqui-inimiga do Silvio Santos.

Junte isso a um filme onde a protagonista não tem nenhuma transformação e convenientemente sabe como funciona um smart fone, um avião e conceitos complexos de escambo, mas não sabia da existência de uma escada rolante ou de uma atendente em um prédio. É lógico que é tudo uma desculpa para emplacar uma piada, mas para isso funcionar a piada precisaria ter graça, o que não é o caso.

Por fim, coloque de fundo em um desenho de som alto demais, uma coleção sem fim de artistas que parecem ser o que há de pior no importante legado dos Los Hermanos. Um monte de músicas que parecem ser as mesmas, todas cantadas… desculpa, “sussurradas” por gente que só quer acreditar no amor, na vida, na esperança e na possibilidade de que um violão tocado sem muita destreza é suficiente para estruturar uma canção ruim.

Pai em Dobro é um filme sobre uma garota em busca dos pais, mas que encontra um jeito de fazer o provável filme mais irritante e desastroso de 2021.


“Pai em Dobro” (Bra, 2021); escrito por Marcelo Andrade, Renato Fagundes, João Paulo Horta e Thalita Rebouças; dirigido por Cris D´Amato; com Maisa Silva, Eduardo Moscovis, Marcelo Médici e Pedro Otonni