Pagliacci | Mais do mesmo… mas com palhaços

Pagliacci Filme

Sobre o que fala Pagliacci, este pequeno documentário? Sobre palhaços, basicamente. Várias definições de profissionais e estudiosos do ramo, de várias gerações e sobre várias facetas. No entanto, você vai sair da sala com a impressão de ter ouvido mais do mesmo por 80 minutos.

Isso porque, dirigido por cinco pessoas — e nenhuma delas lista o filme em seus créditos no IMDB, marca de trabalhos que não precisam de público pois já ganharam o dele — e apresentando diversos profissionais respondendo a mesma pergunta (o que é ser palhaço?), o resultado fica mais ou menos repetido. Mas os participantes não têm culpa. Não há muita originalidade nas respostas porque, além de ser a mesma pergunta, a tentativa de sintetizar esse conceito milenar por pessoas que admiram demais este trabalho acaba virando uma homenagem com uma boa dose de emoção e pouca profundidade analítica. Alguns dizem que ser palhaço é ser… tudo. É por aí que vai o trabalho de “desconstrução”.

E apesar de falar sobre palhaços, este não é um filme para fazer rir. Ele se leva a sério, mas não possui muito foco no que quer falar. Não demonstra o que é ser palhaço simplesmente mostrando alguns momentos dos shows. Eles são mostrados, mas estão dilapidados para analisar como ocorre “a mágica de fazer rir” no detalhe. Não consegue. Vemos um movimento de mãos, expressões maquiadas, o uso do malabarismo e acrobacias, iluminados por descrições burocráticas do processo em si. É como ver pessoas eternamente deslumbradas pela profissão, incapazes de deixar a poesia de lado e as frases prontas. Há uma gíria, deselegante, eu confesso, mas que pode resumir sobre o que este filme se parece: uma babação de ovo muito, muito bem feita.

Pagliacci  Crítica

O ponto alto fica por conta da produção. Editado e mixado impecavelmente, quem juntou tantas peças repetidas deste quebra-cabeças espaço-temporal merece créditos pela coesão. E diferente de muitos filmes nacionais, aqui sons, música (em uma ótima trilha que reúne símbolos) e fala são todas ouvidas sem prejuízo do espectador. É um trabalho fotográfico de primeiríssima qualidade, pois no coloca em ambientes abertos (as ruas de São Paulo), fechados (o picadeiro), com tomadas próprias ou emprestadas de fontes caseiras, e tudo orna e tem cadência, e embora em seu processo artístico falte espírito, em nenhum momento sua estética deixa a desejar.

Mas faltas com o espírito em um trabalho que busca a essência de uma profissão, ou um estado que as pessoas ficam, ou são, é imperdoável. Produzido pela GloboNews, Globo Filmes, Canal Brasil e com verba da Ancine, este parece um exemplo mais próximo de trabalhos de divulgação com captação de recursos do que uma exploração sincera sobre para responder a pergunta o que é ser palhaço. Além de tudo, há propagandas, incidentais, mas há, que ficam por conta dos grandes circos ainda em atividade (cujos nomes não irei citar porque você já conhece ou ouviu falar). E os pequenos, espiamos rapidamente, as últimas décadas os tornaram menores ainda. O dono de um deles exibe uma foto panorâmica das dimensões que o circo tinha nos anos 90, época que o frequentei. Mesmo montado na vila onde eu morava, posso afirmar: ele era gigante e seus ingressos disputadíssimos. Hoje ele se esconde na paisagem urbana e precisa ir para cidadezinhas do interior para sobreviver, e mesmo assim depende da boa vontade da população. Esta parte revela um documentário que ainda precisa ser rodado; mas não é esse.

Aos poucos se revelando como “um filme para fãs”, sejam eles as pessoas por trás dos picadeiros ou quem conhece a fundo as referências de grandes nomes do circo, apenas a explicação sucinta e desajeitada dos dois papéis tradicionais das duplas de palhaços — o Branco e o Augusto — pode ser vista como “sou de fora e aprendi algum coisa”. O resto, como o próprio letreiro da última cena, é um trabalho “sobre a amizade”. O coleguismo do ramo consegue nas salas de cinema sua equivocada representatividade em um trabalho esquecível.


“Pagliacci” (Brasil, 2018), dirigido por Chico Gomes, Júlio Hey, Pedro Moscalcoff, Luiz Villaça e Luiza Villaça, com Alexandre Roit, Carla Candiotto, Chico Pelúcio, Domingos Montagner, Fernando Paz, Fernando Sampaio, Filipe Bregantim, Keila Bueno.


Trailer – Pagliacci

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.