Paciente Zero | Desastroso e esquecível


Por um segundo na linha do tempo do cinema, o austríaco Stefan Ruzowitzky foi um daqueles desconhecidos diretores celebrados que fica sob os holofotes. Ganhou notoriedade com o interessante suspense Anatomia em 2000, ganhou o Oscar em 2007 com Os Falsários e até um pouco mais recentemente aportou em Hollywood com o interessante A Fuga (2012). Mas talvez nada tenha preparado seu público para o desastroso Paciente Zero.

O filme de 2018 foi direto para os DVDs na maioria dos lugares onde chegou, por aqui, surge agora on demand com jeitão de salvação para quem está preso em casa sem nada melhor para ver. Acreditem, têm muita coisa melhor para fazer.

Paciente Zero começa com uma montagem que mistura notícias reais com uma cobertura jornalística que acompanha o crescimento da epidemia de uma variação da raiva que infecta sete bilhões de pessoas e transforma seus cérebros em um motor que apenas busca a violência. Mas se você perder algum detalhe, tudo bem, assim que o filme começa nosso herói, vivido por Matt Smith, vai repetir tudo de novo par seu melhor amigo (John Bradley), mas agora com uma trilha sonora muito ruim (e que perdura pelo filme inteiro).

Ambos fazem parte de uma equipe de cientistas em uma base subterrânea que serve de refúgio para alguns muitos sobreviventes e ainda conduz experiências com esses infectados. A novidade aqui é que Morgan (Smith) já foi mordido por um dos doentes, mas não se transformou nessa espécie de zumbi saradão com o peito à mostra. Entretanto, consegue se comunicar com eles através desses gemidos, que para o bem do espectador são substituídos por uma conversa comum e não legendas (o que tornaria o filme ainda mais esquisito).

Mas a primeira coisa que chama a atenção em Paciente Zero é o elenco cheio de caras conhecidas da TV. Smith já teve seu período como Doctor Who, Bradley estrelou Game of Thrones, junto de Natalie Dormer, que aqui interpreta uma cientista que está perto de encontrar o tal “paciente zero” e já começou a desenvolver uma vacina. Clive Standen, que interpreta Knox, o soldado de queixo quadrado que não cansa de fazer “soldadice” durante o filme inteiro, na verdade sempre escondeu o maxilar por baixo da barba do personagem Rollo em Vikings. Por fim, Stanley Tucci surge mais para o final do filme e você realmente fica pensando como todo esse pessoal foi se meter nessa roubada.

A direção de Ruzowitzky é errática, parece não saber o que fazer e nem como imprimir o mínimo de interesse para suas imagens, tudo parece sair da mente de um diretor com muito menos experiência que ele. O roteiro de Mike Le, acostumado a terrores de segundo escalão, não parece saber o que fazer com essa ideia levemente original e descamba para gente se mordendo, um romance sem muita firmeza e uns flashbacks tão ruins que o diretor faz questão de optar por colocar ecos dos diálogos como se estivesse fazendo um filme de algumas muitas décadas atrás. Só faltou os cantos da tela tremulando.

O bom disso é que Ruzowitzky parece não ter capacidade de dirigir seus atores em cena, então por mais que eles pareçam estar em filme diferentes, todos fazem ótimos trabalhos. Smith acha realmente que é um herói durão, Standen talvez crie um personagem sem saber o futuro dele dentro da trama e Dormer “enfrenta o patriarcado” sem medo, mas logo esquece disso e é difícil entender de onde saiu aquela construção de personagem. Mas dentro de suas esquizofrenias narrativas, todos parecem se divertir, e quando Tucci chega à trama extrapola tudo com uma frieza e uma ambiguidade que são incríveis, mas não fazem sentido dentro do personagem e da trama.

Falando em “fazer sentido”, o roteiro de Mike Le busca inspiração clara no clássico de Richard Matheson, Eu Sou a Lenda, mas não sabe muito bem disso até bem perto do final, o que não lhe permite trabalhar esse lado com o mínimo de confiança em seu público, ficando então parado em seu primeiro ato por tempo demais, apenas apresentando esse mundo e seus detalhes. Quando você menos esperar, o final já está surgindo em sua tela, o que é bom, já que o desastra então dura pouco e você pode rapidamente pular para algum outro filme.

Tudo isso com uma trilha sonora muito ruim, uma narração brega e uma discussão existencial sobre a evolução humana que pouco faz sentido, mas como ninguém vai prestar atenção nela, tudo bem, ela passa e será esquecida, assim como Paciente Zero também será (na verdade, já foi).


“Patient Zero” (UK, 2018); escrito por Mike Le; dirigido por Stefan Ruzowitzky; com Natalie Domer, Stanley Tucci, Clive Standen, Matt Smith e John Bradley


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